O problema do subdesenvolvimento
e o exército industrial de reserva
João Valente Aguiar (*)
«Industry, since an island of commercial monopolists
and spoliators has embarrassed the intercourse of nations,
discouraged the agriculture and manufactures of two continents,
and transferred their workshops into nurseries of pauperism.
Industry, I say, has become the scourge of the toiling millions...
The commercial spirit has opened new fields to fraud and rapine,
spreading war and devastation over the two hemispheres
and carrying the corruptions of Civilized cupidity even into Savage
regions» (1) .
Charles Fourier, The Social Destiny of Man or Theory
of Four Movements (1857)
Resumo
Com este ensaio procura-se agrupar o fenómeno do “excesso
populacional”, com todo um conjunto de propostas que o situam
num contexto social mais geral. Assim, uma visão plurifacetada
da realidade terá de enquadrar tanto o subdesenvolvimento como
a concentração exponencial de seres humanos nas periferias,
em função da existência de um sistema mundial capitalista
(SMC). Uma primeira e breve abordagem histórica, seguida da análise
das dinâmicas principais do SMC é fundamental para se procurar
perceber as raízes que fundam a interconexão entre “subdesenvolvimento”
e a formação de um exército industrial de reserva
(EIR).
Antecedentes históricos do Sistema Mundial
Capitalista
Relativamente recente na história das sociedades humanas, o capitalismo
– aqui entendido num nível de concreção do
modo de produção capitalista (enquanto modelo puro) aplicável
à escala do globo – rebentou com as estruturas sociais
que vigoravam anteriormente. Para lá das diferentes formas em
que o processo de consolidação da ordem burguesa se desenvolveu
em espaços geográficos tão díspares, denotou-se
que «em lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento
locais e nacionais surgem um intercâmbio generalizado e uma dependência
generalizada de todas as nações entre si» (Marx,
1975, p.64). Na prática, Marx acentua a ligação
indissociável entre as várias componentes do mercado mundial,
que protagonizará grande parte dos acontecimentos mais relevantes
da contemporaneidade: as duas Guerras Mundiais, o colonialismo, as rivalidades
inter-imperialistas, os conflitos regionais.
Aliás, o aparecimento do SMC é algo que foi ganhando maturação
antes da Revolução Industrial e da correlativa expansão
dos meios e vias de transporte modernos (comboio, vias marítimas,
etc.). Designando o sistema como uma entidade social com uma divisão
do trabalho específica e singular de forma a que todos os sectores
ou áreas sejam dependentes na realização de trocas
económicas, percebe-se que determinadas «(...) categorias
ocupacionais não estavam distribuídas aleatoriamente,
quer do ponto de vista geográfico quer do ponto de vista étnico
(...)» (Wallerstein, 1990, p.91). Para Wallerstein, portanto,
a economia-mundo em meados do século XV-XVI divide-se em três
grandes segmentos: o centro, a semiperiferia e a periferia. No centro
do sistema encontravam-se a Inglaterra, a Holanda e o Norte de França,
que combinaram áreas aráveis de cultivo, com tecnologia
avançada e com a introdução do trabalho assalariado,
assente na venda da força de trabalho por parte do trabalhador,
em troca de um salário. A periferia do sistema, que abarcava,
o Leste (2) europeu e as Américas, especializou-se no algodão,
cereais, açúcar, ao mesmo tempo que extraíam ouro
das minas, com o recurso a trabalho servo ou escravo. Nas zonas semiperiféricas,
o fabrico de produtos de alto custo industrial, a concessão de
crédito e o uso de meeiros na agricultura (ex. Norte de Itália)
eram as suas principais actividades económicas.
As trocas entre os vários estratos do SMC motivou a ascensão
imparável da burguesia mercantil, que ao enviarem massas volumosas
de matérias-primas, pedras preciosas e ouro para o centro –
e escravos para a América, com o intuito de desempenharem as
tarefas de extracção destes bens – promoveram e
complementaram o progressivo desenvolvimento da manufactura. Com a apropriação
privada dos campos (as famosas enclosures) grande parte do campesinato
foi expulso das suas terras, constituindo, posteriormente, uma enorme
massa absorvida pela grande indústria – o proletariado
moderno. A par da formação da propriedade privada burguesa
e do operariado industrial, as trocas comerciais passaram a ser moldadas
tendo em vista a produção tipicamente capitalista: reduzir
custos de produção e incrementar a produtividade do trabalho
para vender as mercadorias ao mais baixo preço possível,
face à concorrência que se faz sentir e que urge vencer.
Conforme Marx entreviu argutamente, «os preços baixíssimos
das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por
terra todas as muralhas da China (3) (...)» (Marx, 1975, p.64)
[itálicos da nossa autoria].
O Sistema Mundial Capitalista
Com a afirmação do modo de produção capitalista
num centro multipolar de nações, a penetração
das relações sociais do trabalho assalariado na América
do Norte e na Austrália e o enjaulamento das periferias no mercado
mundial, atinge-se a dominância do capital à escala planetária.
Deste modo, e de acordo com o esquema traçado previamente, a
divisão internacional do trabalho vai operar uma especialização
produtiva com contornos de diferenciação marcados pela
maior ou menor presença de capital fixo na produção
de mercadorias e no tipo de bens produzidos (agrícolas, industriais,
matérias-primas (4) ). Esta situação releva para
a consideração de visualizar as desigualdades, ao nível
da produção e apropriação do excedente económico,
a partir dos diferentes graus de incorporação de trabalho
humano na produção de mercadorias. Paul Mattick, economista
marxista de grande relevo, apontou para o facto de que «desde
que a produtividade dos países desenvolvidos é em muitas
vezes superior da que ocorre nos países subdesenvolvidos (5)
, a primeira pode fazer uso do comércio para esmagar qualquer
tentativa da última competir contra aquela (...)» (Mattick,
1981, p.189). Por outras palavras, o «investimento de capital
nessas formações [periféricas] é geralmente
confinado à indústria leve, ao mesmo tempo que a força
de trabalho mantém-se predominantemente desqualificada»
(Poulantzas, 1978, p.64), o que provoca a concentração
de esforços e recursos em produzir produtos com menor valor acrescentado,
que trocados no mercado internacional, não permitem uma acumulação
volumosa de capital pelos países da periferia. Resumindo, deterioração
dos termos de troca e baixa intensidade capitalística na produção,
corresponderiam, na visão mais clássica, aos factores
chave de subordinação das periferias ao centro.
Apesar da justeza desta análise, pensamos que é unilateral
e parcial quanto a uma abrangência de múltiplas faces que
recobrem a problemática do subdesenvolvimento. Samir Amin trouxe
contributos fundamentais para pensar mais proficuamente os processos
que alimentam e reproduzem a polarização na economia-mundo.
Acrescentando aos factores mais directamente relacionados com as desigualdades
na produtividade do trabalho, o autor avança com uma proposta
mais arrojada e com um grau de afinação teórica
mais potente: a troca desigual (6) sustentada na igualdade da produtividade
no(s) centro(s) e, ao mesmo tempo, na(s) periferia(s) (7) .
Partindo do pressuposto que a composição orgânica
do capital (8) é idêntica, nos dois segmentos de estruturação
aqui em vista, na produção do mesmo bem, pode-se atender
ao seguinte. Num sector como, em jeito de exemplo, a produção
de componentes para automóveis, verifica-se que para este tipo
de trabalho semi-qualificado, um trabalhador norte-americano ganha em
média 7-8 dólares por hora, ao passo que «um trabalhador
de uma linha de montagem de Guadalajara [México] ganha entre
2,5 e 3,5 dólares por hora; um seu homólogo em Guangdong
[Cantão, China] recebe 50 a 80 cêntimos» (Burkett,
2004, p.100). Defronte desta ilustração, pode-se assinalar
que perante um cenário de homogeneidade capitalística
imprimida no processo de trabalho, o volume de lucro passível
de ser realizado cresce de forma exponencial. De um lado, porque o abaixamento
nos preços de produção permite derrotar a concorrência.
De outro lado, concretiza-se um maior afluxo de valor realizado com
incontestáveis efeitos na subida ou sustentação
da taxa de lucro (9) .
Nesse sentido, a diferença de lucro realizado na periferia e
no centro, é uma importante quantidade de valor que circula daquela
para o centro do SMC. Nas próprias palavras de Samir Amin «(...)
com igual produtividade, salários mais baixos nos países
subdesenvolvidos, a parte do lucro produzido nestes países é
transferida para o centro (...)» (Amin, 1976, p.168). No fundo,
se esta massa de capital não tem um significado muito vincado
para a acumulação do centro – geralmente pontuada
pela extracção de mais-valia nos sectores tecnologicamente
mais avançados. Em contrapartida, para os Estados da periferia,
esse valor deverá andar na ordem dos 15-20% do produto criado
nestes, e que está longe de ser «(...) negligenciável
em termos relativos, é suficiente para bloquear o desenvolvimento
da periferia (...)» (Amin, 1976, p.144) e contribui para agravar
o fosso vis-à-vis ao centro.
Esta perspectivação da dependência da periferia,
vincula-se à industrialização de partes da América
Latina (México, Brasil, Argentina) e do Sudeste Asiático
(China, Índia, Coreia do Sul), facto que, como já vimos,
Poulantzas e Mattick não deram o relevo necessário.
Assim, já se focou a dominação em dois níveis:
o de captação de matérias-primas e de valor a partir
de sectores pouco produtivos; e o de maior desenvolvimento tecnológico
(se bem que muita da indústria deslocalizada para diversas áreas
da periferia não seja tão avançada como no centro:
nanotecnologias, biotecnologias, investigação científica
ligada às tecnologias da informática e comunicação).
Falta ainda mencionar um terceiro nível de estruturação
da periferia, suporte dos dois anteriores.
O papel da produção mercantil não capitalista,
i.é., o campesinato parcial ou o semi-proletário que não
vende para o mercado, mas que produz para a economia doméstica,
é determinante na reprodução da força de
trabalho. Com a (auto)subsistência assegurada de modo não
remunerado e em condições de grandes dificuldades, o salário
– que nos blocos regionais mais avançados do capitalismo
contemporâneo assegura, geralmente, por inteiro a aquisição
dos meios de sobrevivência e reprodução das classes
trabalhadoras – diminui. Com a redução a priori
da massa salarial, para a mesma quantidade de trabalho exigida a um
trabalhador aumenta, por conseguinte, o valor passível de gerar
lucro (10) .
Portanto, os Estados do centro asseveram a sua supremacia económica
em resultado da acção de três variáveis.
Do solo da multiplicação reprodutiva da força de
trabalho, lavrado pelo substracto da economia de auto-suficiência
alimentar (11) , cresce o tronco da transferência de capital para
o centro a partir do trabalho assalariado nas indústrias de ponta
na periferia. Daqui brota a procura por produtos primários e
recursos naturais que completam o arco da subordinação
dos haveres, meios e interacções sociais que se situam
nas largas margens do SMC, ao caudal frenético da importação
de capital para o leito da economia-mundo.
Prosseguindo uma linha de investigação que tem em linha
de conta a fractura Norte-Sul, importa alicerçar mais cabalmente
as considerações teóricas que temos apresentado.
O evidenciar das modalidades de configuração societal
dos dois grandes estratos que compõem o SMC, passa pela enunciação
das características mais basilares dos mesmos.
No padrão de estruturação económica do centro
do sistema, o modelo de acumulação autocentrado, releva
um lugar de importância indiscutível. Esta modalidade de
desenvolvimento apela para, em primeiro lugar, articular as duas secções
de produção: 1) o departamento de produção
de meios de produção (bens de equipamento, tecnologia,
instrumentos de trabalho); 2) o departamento de produção
de bens de consumo (duráveis e não duráveis, como,
por exemplo, o automóvel ou os produtos de cosmética,
respectivamente). O prosseguimento da expansão da acumulação,
intra-centro, só se concretiza pelo crescente peso relativo da
contínua produção de mercadorias sob a forma de
capital constante, com um objectivo diádico muito simples. Por
um lado, produzir bens de equipamento para, por sua vez, darem origem
a nova maquinaria em ordem a intensificar a produtividade do trabalho
e criar mais unidades de valor de troca. Um exemplo muito claro pode
ser a criação de softwares altamente elaborados –
através do manuseamento de computadores direccionados unicamente
para fins industriais – que vão permitir controlar robots
que limpam e/ou reparam outros robots da esteira toyotista da produção
automóvel (Holloway, 1992). Por outro lado, decorrente das linhas
anteriores, produzir bens de consumo em massa a um custo decrescente
e o mais lucrativo possível. No fundo, esta interligação
mútua e necessária permite que o ciclo económico
se reproduza e alargue.
Ora, para que o grande volume de bens de consumo seja vendido, em ordem
a realizar valor, é indispensável que as classes trabalhadoras
tenham um poder de compra capaz de cumprir estes objectivos económicos.
Assim, os salários vão tender a crescer mais ou menos
equiparados ao aumento da produtividade (12) .
Portanto, a acumulação autocentrada é uma malha
muito complexa para onde convergem diversos eixos. Protagoniza-se uma
junção de dinâmicas como a produção
de meios de produção – ou o que no jargão
da economia neoclássica se traduz por crescimento intensivo à
custa da inovação tecnológica; a constituição
de um mercado de bens de luxo restrito às classes mais abastadas;
e a profusão de um mercado de bens em massa (a sociedade de consumo).
A este cruzamento de três eixos de captação de valor,
junta-se a importação de capital vindo da periferia.
Na periferia, o quadro é substancialmente diferente. A produção
de bens de capital fixo é praticamente inexistente, restringindo-se
a bolsas da semiperiferia como na China ou na Coreia do Sul. A produção
de bens de consumo tem-se difundido pelas periferias, apesar das diversas
tonalidades: desde os produtos agrícolas (as commodities) em
monoculturas como a soja no Brasil ou o milho no México, até
produtos industriais com algum valor bruto acrescentado como componentes
de automóveis na Roménia e Portugal, passando pela extracção
de matérias-primas como o petróleo no Golfo Pérsico
ou a borracha da Indonésia. Em contrapartida, não existe
(ou não é abrangente à grande maioria da população)
um mercado de bens de consumo (13) , porque o que é produzido
na periferia vai entrar no circuito económico do centro. Acaba-se
resgatando uma larga fatia do excedente aqui criado para os fundamentos
de acumulação dos países mais desenvolvidos.
Com um mercado interno exponenciado, em termos relativos, no consumo
de bens de luxo (face ao mercado de bens de consumo de massa), com um
modelo económico virado para a exportação de matérias-primas
e produtos manufacturados (da qual grande parte dos respectivos dividendos
está nas mãos das multinacionais ocidentais), e sem um
espaço sólido de trocas comerciais no seu seio, torna-se
irremediável o subdesenvolvimento de inúmeras zonas da
economia-mundo.
Harry Magdoff recenseou algumas características fundamentais
que asseguram a dominância dos Estados centrais (14) no plano
mundial: a) o controlo das matérias-primas que é tanto
um «(...) mecanismo de protecção contra a pressão
dos competidores como uma arma para manter os competidores não-integrados
[os próprios países produtores] em linha»; b) a
conquista de mercados externos «(...) para prover ao crescimento
necessário para manter o enorme investimento de capital (...)»;
c) o investimento estrangeiro, como forma de estimular a procura mundial;
d) o papel do campo político para a expansão capitalista,
«(...) como meio de exercer influência política no
exterior para obter posições privilegiadas no comércio
internacional e (...) abrir portas aos bancos e instituições
financeiras» (Magdoff, 1969, p.34-39), já para não
falar no papel do Estado no deflagrar de conflitos que podem trazer
benefícios à sua classe dominante (15) .
Recentemente, Samir Amin propôs, a partir das contribuições
de Arrighi, Wallerstein e Gunder Frank, o que chama de cinco monopólios
do centro sobre as periferias. Muito brevemente, são eles o monopólio
das inovações tecnológicas, o monopólio
dos fluxos financeiros – que convergem, por diversas vias, para
as instituições financeiras do centro do SMC – o
monopólio no acesso aos recursos naturais do planeta, o monopólio
dos meios de comunicação de massas (16) e o monopólio
das armas de destruição maciça (17) (Amin, 2000,
p.102-104).
Na verdade, todos estes meios fazem parte do amplo leque de instrumentos
e métodos para prosseguir a dominação das classes
dominantes dos países centrais – em conjunto com as suas
homólogas do Terceiro Mundo – sobre os produtores de mais-valia
e das vastas multidões de excluídos (18) (o exército
industrial de reserva [EIR]) do SMC.
No Sudeste Asiático, uma nova vaga de industrialização
tem ocorrido nos últimos 20-30 anos. Aqui criaram-se zonas de
processamento de exportações, ou seja, zonas industriais
sem impostos sobre importações, exportações
e propriedade, que albergam enormes contingentes de operários
mal pagos, com reduzidos direitos sociais e extensos horários
de trabalho. Na mais pujante economia da zona, a China, «(...)
há 18 milhões de pessoas em 124 zonas de processamento
de exportações, segundo números da Organização
Internacional do Trabalho para Maio de 1998» (Klein, 2002, p.229).
Aliás, o contexto espacial é de uma uniformização
e homogeneidade de condições de trabalho aterradoras:
«(...) o dia de trabalho é longo – catorze horas
no Sri Lanka, doze horas na Indonésia, dezasseis no Sul da China,
doze nas Filipinas. A grande maioria dos trabalhadores são mulheres,
sempre jovens, sempre a trabalharem para empreiteiros ou sub-empreiteiros
da Coreia do Sul, da Formosa [Taiwan] ou de Hong Kong» (Klein,
2002, p.230). Recorrendo a uma exemplificação concreta
e porventura bastante conhecida, observa-se que uma empresa como a Nike
«[...] é uma empresa virtual», porque, «embora
seja o primeiro produtor mundial de calçado desportivo, a Nike
não possui nem fábricas, nem máquinas, nem equipamentos,
nem instalações dignas de referência. Trabalha de
facto com uma vasta rede de fornecedores [...] instalados no Sudeste
Asiático que fabricam as suas centenas de modelos de sapatos
e outros artigos de desporto» (Rifkin, 2001, p.67).
Num outro registo, vai-se procurar chamar a atenção para
o lugar do(s) Estado(s) na rede intrincada das relações
que formam o SMC. Quer dizer, «(...) onde está o centro
da acumulação mundial? Numa pretensa malha transnacional
de interesses capitalistas que desdenha e se ri já dos Estados-Nação
como de uma inutilidade arqueológica? Ou em grandes grupos monopolistas
intimamente associados aos Estados ou blocos de Estados nacionais mais
poderosos (...) e sob cuja protecção política,
diplomática e militar se acoitam em caso de necessidade?» (Novo, 2000, p.59).
Atilio Boron, sociólogo argentino com uma obra muito difundida
na América Latina, rebate as teses hoje em voga por teóricos
como Antonio Negri, que advogam o facto de as empresas transnacionais
e/ou multinacionais (19) não possuírem referência
a um escopo nacional. Baseado em dados empíricos recolhidos pelo
CLACSO (Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (20) ), Boron afirma
que «96% das duzentas megacorporações que prevalecem
nos mercados mundiais e cujos inputs totais alcançam os 7,1 biliões
de dólares por ano – equivalentes à riqueza combinada
de 80% da população mundial – têm suas sedes
em oito países» (Boron, 2003, p.144). Não obstante
o SMC ter uma dominância do económico nas formações
sociais que dele fazem parte, importa vincar o papel imprescindível
da instância social do político. Aliás, já
em 1915, Lenine, em ruptura com algumas visões economicistas
que vigoravam na altura, sustentava que «a época do capitalismo
contemporâneo mostra-nos que se estão a estabelecer determinadas
relações entre os grupos capitalistas com base na partilha
económica do mundo, e que, ao mesmo tempo, em ligação
com isto, se estão a estabelecer entre os grupos políticos,
entre os Estados uma luta pelo território económico» (Lenine, 2000, p.78).
O exército industrial de reserva
O crescimento populacional, que tem ocorrido vertiginosamente nas últimas
décadas, comporta um dualismo a que urge encontrar robustas ferramentas
conceptuais.
De acordo com o que aparece ilustrado na tabela 1:
Tabela 1:

Fonte: World Population Prospects:
The 2000 Revision, Divisão de População do Departamento
de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas
(In Achcar, 2003, p.51).
Mesmo tendo em conta que os valores estimados para
2050 são resultado de uma prospectiva, ou seja, têm uma
componente probabilística muito forte, pode-se vislumbrar um
cenário marcadamente contraditório e desigual. Focando
a nossa análise estatística apenas para o ano 2000, ressalta
o peso esmagador das populações dos países subdesenvolvidos,
comparativamente às dos países “ricos”. Com
uma população mundial de cerca de seis biliões
de habitantes, a periferia, por sua vez, recolhe uma fatia assinalável
– quase 80% do total. No centro (países mais desenvolvidos)
encontram-se pouco mais de um bilião de pessoas (um quinto da
população mundial).
Assim, uma série de problemas se levantam ao cientista social
perante estes resultados. Que causas estão na base deste dualismo?
Será que o crescimento populacional é inversamente proporcional
ao crescimento económico? A concentração de população
nos países da periferia é causa ou efeito de fenómenos
sociais como a pobreza e a fome? Que factores explicam diferentes comportamentos
demográficos como a queda acentuada da natalidade nos países
do centro, simultaneamente com o envelhecimento da população,
em resultado da extensão da esperança média de
vida? Ou porque é que a taxa de natalidade continua a ser tão
elevada na periferia – se bem que com matizes bastante diferenciadas?
Como é possível que um comportamento tão biológico,
e intrínseco à espécie humana, como a natalidade,
assuma contornos tão diferentes consoante a região do
globo? Serão o clima, a raça, um outro componente biológico
qualquer que alimentam e reproduzem estes factos sociais?
A(s) resposta(s) a estas questões só podem ser encontradas
se se partir de dois postulados epistemológicos essenciais e
inescapáveis para o investigador:
1) Explicar o social pelo social. Por outras palavras, terá de
ocorrer a rejeição de explicações naturalistas
– clima e características bio-fisiológicas, individualistas
– uma suposta ignorância dos indivíduos (Malthus)
e etnocêntricas – raça.
2) Em jeito de consumação do ponto anterior, terá
de se enquadrar as dinâmicas de crescimento (e estagnação)
populacional, no contexto da estrutura social global: o sistema-mundo,
nas suas dimensões económica, política, cultural
e ideológica.
Istvan Meszaros, numa crítica às concepções
(neo)liberais do crescimento desmedido da população no
Terceiro Mundo, começa por apontar que a «(...) “explosão
da população” não é uma categoria
genérica de “gente demais”, mas é definida
por determinações sociais muito precisas (...)».
Logo, o autor remete para «(...) a tendência irresistível
de desemprego crónico em todos os países (...)»,
constantemente «(...) deturpada como se fosse devida apenas a
desenvolvimentos tecnológicos e às descobertas científicas
básicas, portanto, como se fosse devida à aparência
de “leis naturais” (21) . (...) esse “excesso de população”
significa cada vez mais trabalho supérfluo». Para todos
os efeitos, «o actual excesso ou “população
redundante” refere-se ao excesso em relação às
necessidades» (Meszaros, 2002, p.320-321). Na prática,
afirma-se o “excesso populacional” no âmbito na incapacidade
do mercado de trabalho absorver volumosos contingentes de força
de trabalho. Incapacidade traduzida na necessidade de reduzir custos
de mão-de-obra, de forma a alargar as margens de lucratividade.
Em suma, o conceito de exército industrial de reserva (ERI) reveste
um depósito de heuristicidade essencial na explicação
das velocidades descoincidentes do crescimento populacional. Por outro
lado, surge como um elo que interliga diferentes tabuleiros do espaço
social: a estrutura económica (forças produtivas e relações
de produção capitalistas); a composição
social da força de trabalho e respectivo peso na regulação
do seu preço; os mecanismos de funcionamento do “motor
a duas velocidades” do SMC; o desabrochar de novas sociabilidades
humanas intimamente relacionadas com o carácter descartável
da mão-de-obra excedentária; características especificamente
demográficas de uma população (esperança
média de vida, natalidade, taxa de fertilidade).
Consequentemente, colocamos a categoria teórica de EIR como um
eixo onde se entrecruzam factores estruturais (instâncias económica,
jurídico-política, ideológica) e processos de acção
social inseparáveis da sua base mais material e concreta (modalidades
de comportamentos reprodutivos, significações dos diferentes
agentes sociais). Concluindo esta breve excursão mais abstracta,
diremos que o conceito de EIR é o nó de intermediação
entre o macro – o SMC – e o micro – fenómenos
tipicamente demográficos.
Marx estabeleceu um patamar de inteligibilidade da formação
e desenvolvimento das classes trabalhadoras, vinculando-o a variáveis
como o seu número de indivíduos e as variegadas formas
de posicionamento no (e face ao) processo de produção
de mercadorias). Com efeito, tem-se presente a ligação
indissociável do trabalho assalariado produtor de mais-valia
com a acumulação de capital (22) . Com a compra da força
de trabalho do operário durante um determinado espaço
de tempo, por um dado valor de troca (o salário), esta vai pôr
em acção a sua utilidade social: a produção
de bens. Essa força de trabalho constitui-se como uma mercadoria
com características muito particulares no seio do modo de produção
capitalista. O seu valor de uso – a actividade-trabalho –
é superior ao seu valor de troca. Por outras palavras, se o preço
da compra da força de trabalho (o salário) é ?,
o valor extra incorporado pelo trabalho operário na produção
será ?+?. A margem extra que aparece no final da cadeia produtiva
é a mais-valia que, com a venda do bem no mercado, passa a lucro
que, por sua vez, se desmultiplica em várias partes: uma fracção
vai ser reinvestida em capital variável e instrumentos de trabalho,
outra vai ser acumulada sobre a forma de dinheiro e uma outra irá
para consumo individual do capitalista. Salariado e capital são,
assim, inseparáveis, com a subordinação do primeiro
ao segundo.
Ora, no modo de produção capitalista, o aumento do capital
– vital para a re-oxigenação do sistema económico
– está ligado ao crescimento do trabalho, melhor dizendo,
da força de trabalho. Todavia, não podemos concluir simplista
e unilateralmente que aumenta imediatamente o contingente operário
em todos os contextos sócio-económicos numa formação
social global. Ou seja, o crescimento do número de trabalhadores
não é uniforme. Porém, só depois de se listar
o modelo puro ou clássico desta ligação é
que se poderá fazer uma associação com os dois
modelos de desenvolvimento do SMC: centro e periferia.
N’ «O Capital», Karl Marx sublinha que «a produção
capitalista não pode contentar-se com a quantidade de força
de trabalho disponível (...)» (Marx, 1979, p.143), ficando
bem patente a divisão entre a força de trabalho presente
no processo produtivo e a mão-de-obra desempregada: o EIR. O
que daqui se pode acrescentar a função que a força
de trabalho excedentária protagoniza no sistema de produção
de capital: a pressão sobre os custos do capital variável
e o instilar da concorrência intra-operária. Se a primeira
actua sobre as leis da oferta e da procura (23) , esta tem efeitos numa
maior sujeição das classes operárias aos imperativos
do lucro, através do medo (24) do desemprego. A sobrepopulação
relativa, que também poderá incluir camadas a trabalho
parcial, constrange a restante população trabalhadora
a se vergar aos intentos da valorização do capital. Ainda
relativamente ao EIR, importa perceber que este também funciona,
como o seu nome indica, num âmbito de reservatório de massa
humana aproveitável consoante os ritmos próprios de capital.
Aliás, com a produtividade do trabalho (25) em crescendo, ocorre
um processo paradoxal nos seus aparecimentos mais imediatos, do ponto
de vista empírico. De um dos lados, a incorporação
de força de trabalho ao processo de produção tende
– em termos relativos e em comparação com o peso
do capital constante na composição orgânica do capital
– a diminuir. Noutro plano, o capital, para que a acumulação
prossiga sem sobressaltos, necessita do crescimento do volume de força
de trabalho disponível.
Poder-se-ia perguntar, então, como é possível que
a cadeia produtiva recorra, percentualmente, a cada vez menos trabalho
vivo e, ao mesmo tempo, careça de uma mão-de-obra mais
extensa. Em parte isto já foi respondido. A pressão sobre
a massa salarial total é vital para a manutenção
da lucratividade. No fundo, com a tendência decrescente da taxa
de lucro (dado crescimento da incorporação de maquinaria
na produção como se pôde ver na nota 7), é
imprescindível manter os níveis de extracção
de mais-valia suficientes para fazer frente ao aumento da composição
orgânica do capital. Logo, só com uma intensificação
dos ritmos produtivos, o expulsar de operários da produção
e com o crescimento nominal da oferta de trabalho se consegue elevar
a taxa de mais-valia e, por conseguinte, da taxa de lucro.
Sintetizando este quadro mais geral dos enredos da produção
de valor de troca, vale a pena recorrer, mais uma vez, a Marx: «a
lei segundo a qual uma quantidade cada vez mais considerável
de meios de produção pode ser posta em movimento graças
a uma despesa cada vez menor de força humana equivale a dizer
que o aumento da força produtiva do trabalho faz aumentar também
a pressão exercida sobre os seus meios de ocupação
pelos trabalhadores, cujas condições de existência
ela torna consequentemente mais precárias: venda da própria
força, para aumentar a riqueza de outrém e fazer frutificar
o capital» (Marx, 1979, p.150).
Redireccionando o vector orientador do nosso estudo, há que estudar
o que de facto se passa na periferia do SMC. Nesse sentido – e
voltando à análise do modelo de desenvolvimento dependente
e truncado da periferia – importa situar com maior acuidade as
formações sociais presentes na periferia.
Assim, classificar-se-iam os países periféricos como capitalistas
ou como feudais? Como sociedades de transição ou tradicionais?
Ora, pelo que temos vindo a expor neste ensaio só podemos responder
afirmativamente ao carácter capitalistas destes países.
Aliás, existem dois grandes grupos de países periféricos:
1) países com um grau de industrialização assinalável,
casos do Brasil, China ou da Índia; 2) países com uma
estrutura económica fundamentalmente assente na exploração
agrícola (tradicional ou para exportação (26) ),
e quase sem indústria, como vastas áreas em África
ou certos países da Ásia Central, como o Afeganistão.
Mesmo que neste último grupo as relações sociais
de produção capitalistas não sejam preponderantes,
o seu grau de ligação ao mercado mundial é inquestionável.
Mais importante que o fornecimento de matérias-primas para o
centro, o que aqui está em causa é o bloqueamento do desenvolvimento
destes países. O que se passa é que face à colossal
dívida externa (27) , às saídas de capital do investimento
directo estrangeiro (IDE) para o centro e à troca desigual, torna-se
impossível promover uma forma de acumulação autocentrada,
tal como se dá no centro. Ora, com a manutenção
do peso de estruturas sociais típicas de pretéritos modos
de produção – que são potenciados em favor
das necessidades de acumulação de capital no centro –
é uma miragem insistir na via de uma suposta homogeneização
mundial do capitalismo ao jeito do preconizado por Rostow (Rostow, 1963).
No que toca às periferias industrializadas (28) , estas têm
uma estrutura social mais híbrida, onde coexistem traços
modernos e pré-capitalistas lado a lado. As castas, exemplarmente
utilizadas pelo capital internacional para dispor de força de
trabalho mais dócil e mais barata, são o exemplo mais
acabado disso mesmo: o retrabalhar e incorporar dos aspectos mais vantajosos
de relações sociais originariamente não assalariadas
na máquina da produção de valor. Contudo, a industrialização
e o crescente assalariamento resultam na dominância mais acentuada
das relações de produção capitalistas no
interior de cada um dos respectivos Estados. Então, a fractura
que surge entre a periferia industrializada tem mais que ver com mecanismos
como a dívida externa ou o IDE do que com o edifício social
mais especificamente não mercantil. Basta atentar na muito maior
dívida da América Latina (790 biliões de dólares)
ou do Sudeste e Sul Asiático (760 biliões) aos Estados
ou instituições internacionais – FMI, Banco Mundial.
Portanto, na periferia não industrializada o crescimento populacional
é o mais pujante, na medida em que «estas formações
são caracterizadas pela importância de reservas rurais
que estão num lento processo de desintegração,
e que constituem o principal elemento no mercado da força de
trabalho. No capitalismo central essas reservas não existem» (Amin, 1976, p.194).
O EIR tem então um duplo papel. Se como na formulação
clássica marxiana o EIR é um aríete lançado
ao operariado inserido no mercado de trabalho, nestas zonas do globo
existem franjas que já não o são. Quer dizer, já
nem sequer são mão-de-obra aproveitável pelo capital
até pela sua inexpressiva posse de qualificações
profissionais. A sua função sistémica circunscreve-se,
quando muito, a baixar os custos da reprodução da força
de trabalho ainda integrada ou anexa ao mercado de trabalho.
Arriscando a seguinte hipótese, diremos que o estilhaçar
do ramalhete não mercantil e tradicional (29) no seio de determinadas
sociedades é condição decisiva no aumento da sua
população. Os dados mais recentes da OIT confirmam isso
mesmo, como se pode verificar pela leitura dos dados da tabela 2.
Tabela 2:

Fonte: World Employment Report, Intenational
LabourOrganization (OIT, 2004, p.5)
Segundo a OIT (Organização Internacional
do Trabalho), o crescimento da taxa anual da força de trabalho
mundial (entre 1993 e 2003) foi de 1,8%. As regiões com um maior
aumento da mão-de-obra disponível foram respectivamente
o Médio Oriente e Norte de África (3,3%), a África
Subsariana (2,8%), o Sudeste Asiático (2,4%) e a Ásia
Meridional (2,3%). Nos países centrais do SMC, houve um crescimento
muito reduzido (0,8%), marcado, em grande parte, pela importação
de força de trabalho imigrante – hispânicos e asiáticos
para os EUA e magrebinos, turcos e europeus de Leste para a UE. Por
outro lado, de acordo com o mesmo relatório, o número
de desempregados situa-se nos 185,9 milhões, já para não
falar dos 1,39 biliões de trabalhadores que recebem menos de
dois dólares por dia (OIT, 2004, p.2).
Estes dados estatísticos basicamente confirmam as nossas hipóteses
teóricas da conexão e determinação do crescimento
do EIR (e da população total) de acordo com a configuração
do tipo de desenvolvimento capitalista nas regiões mais pobres.
O EIR nos países do centro insere-se profundamente nas malhas
do desemprego, fruto do uso da tecnologia, pelo modo de produção
capitalista, no processo de trabalho. «À medida que a economia
se expande, tende a incorporar proporções cada vez mais
pequenas de trabalho humano relativamente aos outros componentes da
produção [aos meios de produção], e uma
fracção crescente da força de trabalho é
assim incapacitada de encontrar emprego» (Hirschl, 1997, p.164).
Portanto, a questão não está na maquinaria em si,
mas nas relações sociais que lhe dão suporte. Por
outras palavras, mesmo que uma nova inovação tecnológica
implique a redução da massa de trabalhadores para executar
uma determinada tarefa, é a subordinação do operário
ao processo de valorização do capital que o atira para
o desemprego. Esta situação desenrola-se no seio de um
processo em que o trabalhador é tido como descartável,
quando o custo da sua força de trabalho não é mais
passível de manter ou aumentar a taxa de lucro (face a uma determinada
proporção de capital constante utilizada e do grau de
concorrência a que a empresa está sujeita no mercado).
Com a crescente produtividade do trabalho, nomeadamente em esferas tecnologicamente
avançadas, dá-se a expulsão de operários
(manuais e intelectuais; qualificados e desqualificados) do mercado
de trabalho. Em simultâneo, ocorre uma precarização
dos vínculos laborais (trabalho temporário, contratos
a prazo) com o correlativo aumento do subemprego. Aqui as fronteiras
entre o emprego e o desemprego são, por vezes, muito ténues
(30) . Forma-se um «exército de reserva de mão-de-obra
docilizada pela precarização e pela ameaça permanente
do desemprego» (Bourdieu, 1998, p.133).
No entanto, o módulo de desenvolvimento autocentrado por implicar
uma adequação do volume da força de trabalho às
necessidades do seu mercado interno acaba por desenvolver um EIR plástico
(porque o seu volume varia de acordo com as necessidades de criação
de valor; daí que muitas das vezes seja revigorado por trabalho
imigrante) e altamente funcional na pressão descendente dos custos
com força humana produtora de mercadorias. As próprias
famílias das classes trabalhadoras – que viram as suas
condições de vida melhorarem nas décadas 50-80
– auto-percepcionam a sua situação actual de vulnerabilidade
no mapa social. Não é por acaso que a restrição
do número de filhos se relaciona, em parte, com a possibilidade
de lhes oferecer (possíveis) condições de melhoria
do seu nível de vida. Ao que a ultrapassagem de um certo limiar
do número de descendentes redundaria no sacrifício de
oferecer educação, bens culturais e serviços de
apoio (tempos livres, desportos, ajuda extra-escolar) fulcrais para
a competição que se dá pela entrada nos (poucos)
lugares que dão acesso a localizações de classe
mais vantajosas. Por outro lado, para as classes trabalhadoras do centro,
o acréscimo de filhos não é fonte de extracção
de rendimentos para o agregado familiar, como acontece nas periferias
(cf. supra).
Resumindo, a família funciona como um nível de articulação
entre as necessidades de sustentabilidade do mercado de bens de consumo
e o mercado da força de trabalho. Ou seja, a estagnação
populacional que ocorre no centro do SMC – onde em muitos países
apenas é assegurada pelas sucessivas vagas de imigração
– decorre da adequação do volume da força
de trabalho à base económica.
Simultaneamente, está presente uma correspondência estrutural
entre essa mesma quantidade de força de trabalho e os imperativos
de realizar valor no mercado de bens de consumo. Assim é, já
que neste estrato do SMC existe o imperativo de equiparar o aumento
dos salários ao aumento da produtividade, de forma a acompanhar
os índices de crescimento do mercado de bens de consumo. Desse
modo, acaba por ser quase inevitável o controlo do número
de filhos em ordem a permitir a satisfação de necessidades
básicas das famílias assalariadas no universo das trocas
económicas.
Nas periferias industrializadas encontramos um crescimento da força
de trabalho na ordem dos 2,3% para a América Latina, o Sudeste
Asiático com 2,4% e o Sul da Ásia a 2,3%. Este crescimento
superior ao registado no centro é sintomático da penetração
acentuada da configuração capitalista e industrial nas
suas formações sociais. Logo o padrão de estruturação
económico e social (sobretudo familiar) tende – nas classes
trabalhadoras mais ligadas ao trabalho não manual – a assemelhar-se
ao que se encontra no centro. Contudo, o seu tecido económico
virado para os mercados de bens de consumo e de capital fixo do centro,
acarreta a contínua distância relativamente a este. A permanência
de alguns resquícios de modalidades de organização
social não-capitalista também têm o seu impacto,
se bem que secundário face ao anterior.
Assim, podemos considerar a seguinte tabela:
Tabela 3:

Fonte: Banco Mundial, World Development
Report, 2000 (In Chossudovsky, 2003, p.46)
Pela análise da tabela percebe-se o dualismo
que caracteriza o actual SMC: se os países da periferia (aqui
designados por países pobres) têm a mais elevada percentagem
de população do planeta (85%), a quantidade de rendimentos
acumulados corresponde a uns parcos 22%. Pelo seu lado, no centro concentram-se
quase quatro quintos do PIB mundial. Aliás, o quadro de polarização
mundial seria ainda superior se se realizasse uma mais fina estratificação
dos rendimentos e das localizações de classe no interior
de cada um dos países. Aí, eventualmente, poder-se-ia
descortinar com maior profundidade a diferenciação de
captação de riqueza entre as várias fracções
de classe e, assim, compreender-se cabalmente a alienação
dos produtos do trabalho do proletariado mundial nas mãos das
classes dominantes tanto dos países do centro como da periferia.
Consequentemente, afirma-se a pertinência do antagonismo proletariado/burguesia
à escala mundial.
Concluindo, podemos observar a íntima relação entre
o modelo de desenvolvimento capitalista para cada estrato da economia-mundo
e a respectiva população e, que é o que mais importa
ao nosso trabalho, a extensão do EIR.
(*) João Valente Aguiar é estudante do 3º ano do curso de Sociologia na Universidade do Porto. Tem desenvolvido trabalhos de animação político-cultural e publicado diversos artigos nas revistas ‘Política Operária’ e ‘Vértice’.
_____________
NOTAS:
(1) «A Indústria,
desde que uma ilha de monopolistas comerciais e espoliadores abraçaram
o rumo das nações, desencorajou a agricultura e as manufacturas
dos dois continentes [Europa e América] e transformou as suas
fábricas em berços de pauperismo. A Indústria,
digo-o eu, tornou-se no chicote dos milhões de oprimidos... O
espírito comercial abriu novos campos de fraude e rapina, espalhando
a guerra e a devastação sobre os dois hemisférios
e levando a corrupção da cupidez civilizada até
mesmo às regiões Selvagens» [Tradução
da nossa autoria].
(2) O próprio Wallerstein vai designar a forma
de produção vigente nesta região europeia como
uma “segunda servidão”. Estamos em crer que o caminho
prosseguido no Leste Europeu, em não romper com as “cadeias”
senhoriais teve importantes repercussões na sua História
política mais recente. Lenine, ainda na sua juventude, chamou
a atenção para o aprisionamento da Rússia czarista
ao legado feudal, mesmo depois da abolição legal da servidão
em 1861: «(...) os camponeses trabalham a terra com o seu próprio
material. Eles são retribuídos de diversas formas (em
dinheiro quando estão engajados [contratados] à tarefa;
em géneros se o fazem por arrendamento de terras). Mas esta variedade
de formas não muda nada a natureza do sistema que é uma
sobrevivência directa da corveia» (Lenine, 1974, p.172)
[tradução do francês da nossa autoria]. Este é ainda um problema que assola uma boa parte do chamado Terceiro Mundo.
(3) «(...) A periferização das
Índias Orientais exigiria uma política de colonização
em dois sentidos: estabelecimento de um controlo político a fim
de refrear potentados asiáticos relativamente fortes [casos da
China e da Índia], e exportando uma classe de colonos brancos,
tanto para supervisionar a produção agrícola orientada
para o mercado, como para proporcionar um mercado inicial seguro para
outras exportações europeias» (Wallerstein, 1994,
p.55).
(4) A corrida pelo acesso às matérias-primas
teve uma prevalência estrutural na expansão do SMC no final
do século XIX e no início do século XX. Foi nesta
fase de plena industrialização no centro que os novos
sectores de actividade, «(...) as novas tecnologias e o crescimento
da competição entre as nações industrializadas,
deu uma nova importância ao papel das matérias-primas»
e aumentou «(...) a pressão para ganhar controlo sobre
territórios distantes cujo valor assumia uma nova relevância»
(Magdoff, 1969, p.32) [todas as traduções neste trabalho
do inglês são da nossa autoria].
(5) O centro, em virtude de se encontrar melhor apetrechado
tecnologicamente, ao mesmo tempo que possui um maior incremento da divisão
do trabalho acompanhada de formas de organização do trabalho
mais eficientes e de ter uma massa de trabalhadores e quadros técnicos
e científicos muito mais qualificados (do ponto de vista profissional
e académico), permite obter maiores taxas de produtividade, e
que, por conseguinte leva ao «[...] crescimento dos salários
no centro, que o capital tenta compensar com a sobre-exploração
da periferia. Este duplo movimento polariza a partir daí o desenvolvimento
no centro, sem evidentemente ‘marginalizar’ em termos absolutos
a periferia, marginalizando-a em termos relativos, como demonstra a
diferença crescente dos produtos nacionais [PNB]» (Amin,
1976, p.121).
(6) De facto foi Arghiri Emmanuel quem apresentou
pela primeira vez as teses da troca desigual em 1972.
(7) Não vamos, no âmbito restrito deste
ensaio, procurar definir com maior precisão os conceitos de centro
e periferia, tendo em mente a própria estratificação
que se dá dentro destes agrupamentos.
(8) A composição orgânica do capital
consiste na proporção respectiva de capital variável
(gastos em salários) e capital constante (gastos em maquinaria
e seu desgaste, aplicação tecnológica ao processo
produtivo, matérias-primas), no total de capital despendido para
a produção de uma determinada mercadoria.
(9) A equação que está na base da taxa de lucro
resume-se ao quociente da taxa de mais-valia – grau e intensidade
de mais-valia extraída do sobretrabalho não pago ao operário
produtor de mercadorias, sejam elas materiais ou imateriais –
sobre a composição orgânica do capital (maquinaria,
tecnologias aplicadas na produção, salários e custos
de formação profissional).
Taxa de Mais-Valia
Taxa de Lucro =_____________________________________________
Capital Constante + Capital Variável
(10) Assim é porque aumenta a quantidade de sobretrabalho, relativamente
ao volume do trabalho socialmente necessário para repor o valor
da força de trabalho.
(11) De frisar que esta auto-suficiência apenas
diz respeito ao assegurar das condições de reprodução
da mão-de-obra, e não a qualquer bem-estar ou maior ou
menor satisfação de necessidades básicas.
(12) Apenas uma ressalva. Não se está
aqui a afirmar a formação do preço do salário
através da produtividade. Esta constitui-se como um factor de
avaliação e determinação da amplitude do
crescimento (ou não) dos salários reais.
(13) Por outro lado, não nos devemos esquecer
da preponderância da economia tradicional no acesso a bens alimentares
e outros bens de subsistência, fora dos mecanismos do mercado
moderno, de acordo com o que já foi acima explicitado.
(14) Como potências centrais temos, nos dias
que correm, os países do G7 (os Estados Unidos da América,
o Japão, a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Itália
e o Canadá), os países nórdicos (Noruega, Suécia,
Finlândia, Dinamarca), a Suíça, a Bélgica,
a Áustria e a Holanda. Países como Portugal, Espanha,
Grécia ou a Coreia do Sul são uma espécie de “periferia
do centro”, que compartilham o modelo de acumulação
autocentrado, mas num registo menos intenso e, por vezes, contraditório
nas suas dinâmicas e (dis)funções internas.
(15) O exemplo da guerra no Kosovo ou a invasão
do Iraque são claras actualizações das asserções
de Magdoff. A este propósito recomenda-se a leitura de «O
Novo Humanismo Militar – Lições do Kosovo»
de Noam Chomsky (Chomsky, 1999) e «Guerre et mondialisation» de Michel Chossudovsky (Chossudovsky, 2002).
(16) As tentativas de encerrar a cadeia de televisão
árabe Al-Jazeera é um reflexo desta tendência de
largo espectro sustentada nos grandes media internacionais (CNN, NBC,
Sky, BBC, Reuters, Time, Newsweek) que são uma das facetas incontornáveis
da globalização cultural.
(17) Muito provavelmente este é o tipo de monopólio
actualmente mais precário. O exemplo da grande capacidade bélica
de países como o Irão, Israel, Coreia do Norte, Índia
e Paquistão é, a vários títulos, elucidativo,
embora os países do centro, nomeadamente os EUA, tenham uma capacidade
militar muito superior a qualquer um daqueles Estados.
(18) De acordo com um relatório da OIT (Organização
Internacional do Trabalho), metade dos proletários de todo o
mundo auferem menos de dois dólares por dia. Segundo notícia
do jornal “Público”, «(...) dos 2800 milhões
de pessoas activas em todo o mundo em 2003, 1400 milhões - o
total mais elevado de sempre - vivem com menos de dois dólares
por dia. Mais de 550 milhões nem sequer chegam à média
de um dólar por dia (...)» (Público/Lusa, 2004,
p.18). Mais à frente regressaremos a esta questão.
(19) Sobre o papel das grandes corporações
na economia mundial, recomenda-se vivamente a leitura do capítulo
“A absorção do excedente: o esforço de vendas”
do já clássico «Monopoly Capital» dos economistas
norte-americanos Paul Baran e Paul Sweezy. (Baran e Sweezy, 1975, p.117-144).
(20) Em português: Conselho latino-americano
de Ciências Sociais.
(21) Relativamente às novas configurações
do mercado da força de trabalho – apresentadas como inescapáveis
– Bourdieu coloca o dedo na ferida, ao demonstrar como a linguagem
do patronato, dos media e de certos partidos políticos, como
os «factores de rigidez no mercado de trabalho», mais não
é do que uma carapaça do que «(...) de imediato
se trata de entender: trabalho nocturno, trabalho durante os fins-de-semana,
horários irregulares, pressão constante, stress, etc.» (Bourdieu, 1998, p.60).
(22) Capital acumulado que se corporiza de três
maneiras: em dinheiro, em mercadorias e em máquinas e outros
objectos de trabalho.
(23) Com o aumento do trabalho disponível,
para uma procura de mão-de-obra constante (ou inferior à
oferta), os salários reais baixam. Ou pelo menos não aumentariam
tanto como seria de esperar face se a oferta fosse mais reduzida.
(24) Este medo não é necessariamente
exercido directamente pelo patrão e outros elementos de chefia,
como o recurso a ameaças. O receio de perder o posto de emprego
relaciona-se com a percepção subjectiva embutida no habitus
do proletário que percepciona que numa situação
de crise ou de redução do efectivo de trabalhadores de
uma empresa, o seu lugar está em risco. A socialização
para esse tipo de atitudes é um “dado adquirido”
no universo simbólico do assalariado. Para uma análise
dos mecanismos de insegurança vivenciados no trabalho pelas classes
trabalhadoras, ver (Bourdieu, 2004, p. 47-50).
(25) Aqui entendida em referência estrita à
prossecução de níveis satisfatórios ao nível
da taxa de lucro.
(26) Como o cacau da Costa do Marfim ou o café de Timor.
(27) O continente africano tem uma dívida aos
seus credores internacionais de 530 biliões de dólares
(Achcar, 2003, p.26), correspondente a metade do PNB de um país
como a Itália (1068 biliões) (Achcar, 2003, p.44).
(28) A que poderíamos denominar de semiperiferia.
Todavia, por comodidade discursiva temos utilizado o termo de periferia.
(29) Convém não esquecer a diferente
forma de organização familiar nas periferias não
industrializadas. Não porque se esteja na presença de
qualquer imposição divina ou biológica, mas no
sentido das significações simbólicas que os membros
das famílias conferem aos seus entes e na própria configuração
dada à “instituição” família.
Nas sociedades mais tradicionais, o papel dos filhos – para lá
do lado afectivo e sentimental que comporta – enquanto meios de
produzir recursos para a subsistência da família é completamente diferente do que ocorre no centro.
(30) Basta estar atento aos critérios usados
na definição de desemprego pelo Instituto Nacional de
Estatística (INE). Um deles refere-se aos empregados com duração
habitual de trabalho inferior à duração normal
do posto de trabalho (trabalham menos de 15 horas por semana) mas que
declararam desejar trabalhar mais horas. Isto é bastante discutível,
já que considera o “biscate” e o “part-time”
como emprego, i.é., como um contrato mais ou menos duradouro
e regular de exercício de uma profissão.
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