A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
 dados biogrÁficos
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nasce na cidade da Beira, na ex-"província ultramarina" de Moçambique, a 17 de Abril de 1961, filho de pais portugueses aí temporariamente colocados como professores do ensino primário.

Escola da Manga

Faz a 1.ª e a 2.ª classe na Escola Primária de Manga Loforte, arredores da Beira, onde a sua mãe também dava aulas. Era muito perto de sua casa, que tinha mesmo em frente a magnífica igreja desenhada por Garizo do Carmo. Outro local de que se recordará bem é a Praça do Município, um local de lazer no centro da cidade, com o seu Café Capri.

Café Capri

Os criados domésticos negros (mainatos) eram afáveis e cúmplices, sempre generosos com o seu riso desarmante. Para uma criança extrovertida e inquiridora, os horizontes africanos, pletóricos de sol e desinibição, eram um convite permanente à descoberta do outro. A diversidade humana era encarada como natural. Rezavam as crónicas orais familiares (quando ainda as havia) que, sempre que os seus pais saíam à rua com ele, eram constantemente confrontados com estranhos, de todas as condições sociais, que o saudavam vivamente, de longe, depois de terem travado relações com ele noutras circunstâncias.

Em finais de 1968, a sua família regressou a Portugal (a "metrópole"). Aí tem vivido deste então, sempre no concelho de Vila Nova de Gaia. O Portugal do marcelismo, por contraste, era monocolor, aflitivamente acanhado e pobre, de uma tristeza aparentemente sem remissão. A instrução primária foi concluída na Escola das Devesas, na freguesia de Santa Marinha. A família vive na Rua da Cabine, em Oliveira do Douro, próximo do lugar de Gervide.

Na «Primavera» marcelista

Frequenta a antiga Escola Preparatória Teixeira Lopes, num velho solar já demolido, à Rua Raimundo de Carvalho, na freguesia de Mafamude. Entre os seus colegas nesta escola contou-se o futuro artista plástico Agostinho Santos. No pátio da escola desenrolavam-se grandes batalhas de camélias. A sua consciência social, nesses tempos, oscilava entre a levitação de um forte misticismo católico e uma necessidade primatológica de abrir caminho para a afirmação pessoal por meio da violência ou da intimidação. E sempre a mesma obsessiva pergunta "Quem sou eu?" Sou vulgar ou especial?

Dos livrinhos de Enid Blyton saltou então para a biblioteca de sua mãe, onde havia em abundância Erich Maria Remarque, Stefan Zweig, Walter Scott, Charles Dickens e Ferreira de Castro. Leu também inúmeros atlas e enciclopédias juvenis ou populares.

No caminho a pé para a escola, o seu grupo divertia-se a destruir lâmpadas de iluminação pública à pedrada, junto ao grande muro da Quinta da Lavandeira, então existente. Isto é, sem dúvida, bastante reprovável. Mas esta sociabilidade masculina nos meios populares de Oliveira do Douro viria a ter um papel muito importante na sua formação. Tendo-lhe sido negado ser africano, encontrara uma nova identidade. Ao longo da sua vida adquiriria alguma cultura e refinamento cívico. Mas a sua matriz discursiva, a base idiomática do seu monólogo interior seria para sempre em plebeu portuense, com o seu calão caraterístico.

Com início no ano letivo de 1973-74, frequenta, muito perto dali, o denominado Liceu Nacional de Vila Nova de Gaia, cujo reitor era então o poeta Albano Martins. Tratava-se de uma instalação ainda relativamente recente, disposta como um grande acampamento gradeado. Tinha três pavilhões de salas de aula, de dois pisos cada, mais um ginásio e um campo de jogos. Depois acrescentaram-se uns pré-fabricados. O encarregado Severo tinha a missão de não deixar fugir os miúdos por entre as grades, para o bilhar e a matraquilhada nos cafés.

A revolução de 25 de abril deu então a volta ao país por completo. O Severo agora era um "fascista". Os ventos de liberdade fizeram com que passasse a fumar tabaco, e pouco depois também cannabis. Deixou crescer o cabelo. Foi um aluno sempre muito desleixado, embora sem problemas de aproveitamento escolar. O seu acervo de leituras e uma certa facilidade na escrita iam bastando, por enquanto. Por afã de rebeldia tem problemas disciplinares que seriam de alguma gravidade se levados a sério.

Ouve com fascinação o rock progressivo dos Genesis, Pink Floyd, Jethro Tull, King Crimson, Focus e outros. Também a canção de intervenção portuguesa, naturalmente. Folheia o Mundo da Canção. Mas lia sobretudo os existencialistas franceses, em particular Albert Camus.

Dá grandes passeios de bicicleta com alguns companheiros. Usavam o elevador da Ponte da Arrábida para visitar a Afurada. Na grande descida para Crestuma, iam todos a grande velocidade, sem mãos no guiador e fazendo acrobacias em cima no quadro.

Ainda adolescente, confraterniza com populares e soldados sublevados no Quartel da Serra do Pilar, em outubro de 1975. Está por então próximo do anarquismo, embora também acompanhasse o argumentário e a iconografia m-l.

No PREC

Em 7 de Julho de 1977 é detido por fumar cannabis e passa uma noite no Aljube de Santa Clara, no Porto. Este episódio criou um grande alarme familiar. Os seus movimentos foram restringidos e as suas companhias selecionadas.

No ano lectivo de 1977/78, conclui o curso complementar dos liceus (disciplinas nucleares História e Filosofia) com treze valores. A passagem por esta escola foi proveitosa, apesar de bastante mal aproveitada. Uma professora conseguiu incutir-lhe o gosto pela Filosofia, que se revelaria durável. Adquire alguma experiência em associativismo estudantil e animação cultural (jogos florais, torneios de xadrez, pequenos títulos de imprensa).

Circa 1978

Conclui o Ano Propedêutico de acesso ao Ensino Superior, no ano letivo de 1978/79. São desse tempo as suas primeiras experiências amorosas.

É campista federado e condutor entusiasta de um pequeno motociclo Casal Boss. Participa nas atividades da Secção de Cinema Amador do Cineclube do Porto. É frequente espetador de cinema, já com algum critério, bem como leitor incansável de romances, novelas, poesia e algum teatro. Dos autores que mais o cativavam nessa altura, lembra-se de Dostoievsky, Gogol, Kafka, Hemingway, Scott Fitzgerald, Flaubert, D. H. Lawrence, Jorge Amado e García Márquez.

No ano lectivo de 1979/80 matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Após o mês da chegada, deixou por completo de frequentar as aulas. Lembra-se de uma, do Prof. Castanheira Neves, que foi uma girândula de erudição sem qualquer norte ou propósito discernível. O ensino magistral e a falta de condições mínimas de espaço afastaram-no das salas dos "gerais". As suas primeiras notas foram pavorosas. Esteve a ponto de desistir do curso. Após um período dIfícil de adaptação ao estudo árduo, os primeiros resultados positivos inclinaram-no a ficar. Até hoje não sabe se isso terá sido bom.

Circa 1980

Participa em 1980 na ocupação do Instituto Jurídico, à Via Latina, no âmbito de uma luta estudantil algo fútil mas que, espantosamante, terminaria vitoriosa. Travou aí amizade com Guilherme Figueiredo, um dos dirigentes desse movimento. As autoridades académicas não quiseram arriscar qualquer violência policial no seu santuário. Viviam-se ainda resquícios de espírito revolucionário. A esquerda tinha acabado de perder eleitoralmente, pela primeira vez em décadas, a Associação Académica de Coimbra (A. A. C.). As tradições académicas (traje, cerimonial e praxe) eram então o grande pomo de disputa ideológica. Enquanto viveu em Coimbra, sempre as recusou com horror.

É eleito, em anos sucessivos, membro da Assembleia de Representantes da Faculdade de Direito, pelo corpo dos discentes, participando aí em debates vivos (e algumas altercações memoráveis) sobre a vida académica, com professores e outros alunos. Fez também parte do Conselho Pedagógico da mesma Faculdade de Direito, eleito pelos alunos. Escreve programas eleitorais e panfletos diversos.

Gerais

Ganha larga experiência na condução de lutas estudantis e na negociação de conflitos académicos, em especial pelo papel de representante eleito pelos alunos nas comissões de curso que integrou. Embora não frequentasse as aulas, não deixou de estar presente quando se tratou de convencer os seus colegas a abandoná-las em adesão a lutas em curso. Promove e edita alguns títulos efémeros de imprensa estudantil. Organiza colóquios e debates.

Começa a ler Marx (e Engels, por arrastamento) sistematicamente, com método e afinco. É o fascínio. Ninguém mais escreve com aquela densidade, com aquela ira, com aquele fero sarcasmo. Notará depois que começou inconscientemente a mimetizar o seu ídolo, no tornear da frase, inclusivamente no tratamento dado ao próprio rosto.

Pyn-güyns

É admitido como membro e reside, durante todo o período letivo, na Real República dos Pyn-güyns, em Coimbra, tendo aí como companheiros Eduardo Faria, Severo de Melo, Elmiro de Sousa, entre muitos outros. Nos "centenários", por lá apareciam antigos repúblicos como Alberto Martins, Rui Namorado e Décio Sousa (veteranos da crise académica de 1969), bem como amigos de sempre da casa como o Professor Orlando de Carvalho. Participou em diversas ações associativas das repúblicas estudantis de Coimbra, bem como na sua defesa contra a ameaça de despejo judicial que sobre elas então pendia.

Desenvolve actividade associativa no Grupo Ecológico da A. A. C.. Nesse âmbito colaborou na organização de diversas ações públicas, exposições e publicações de sensibilização para temas de defesa ambiental e economia sustentável. Lê Murray Bookchin e Ivan Illitch. Convive com Afonso Cautela, histórico do ecologismo português. Aproxima-se da esquerda socialista auto-gestionária e do reformismo estrutural de André Gorz. A leitura muitos livros publicados pela editora Centelha, bem como da Revista Crítica de Ciências Sociais também foram importantes na sua formação ideológica nesta fase.

Foi associado no Centro de Estudos Cinematográficos da A.A.C.. Aí integrado, participou na organização de diversos ciclos de cinema e cursos de cultura cinematográfica.

Foi várias vezes candidato aos corpos gerentes e uma vez à presidência da A. A. C., sempre sem sucesso, pois que estes anos foram de hegemonia ininterrupta da direita no movimento associativo estudantil coimbrão.

Muitas noitadas bem bebidas no bar "Clepsidra", junto à base das escadarias gerais. Conversa acesa, debates estéticos e políticos, planos de ação, algum namoro e, por fim, a altas horas na madrugada, canções populares e revolucionárias cantadas em coro. De tarde, a paragem obrigatória era o Café Tropical, à Praça da República. As manhãs passavam-se entre lençóis, com o despertador sempre marcado para as 13h50, a tempo de ir almoçar à cantina.

Vértice

Entre 1982 e 1985 é Secretário da Redação da revista cultural marxista (ou neo-realista) Vértice, então ainda sediada em Coimbra. Aí teve como colegas e colaboradores próximos Joaquim Gomes Canotilho, António Avelãs Nunes, Vital Moreira, Jorge Leite, Aníbal Almeida, Maria Manuel Leitão Marques, Guilherme Figueiredo, Abílio Hernandez Cardoso, José Oliveira Barata, Cristóvão Aguiar, Maria José Vitorino Gonçalves, Carlos Santarém Andrade, Nuno Ribeiro, João Gouveia Monteiro, entre outros de presença mais breve.

Nessas suas funções de Secretário de Redação da Vértice recebia, apreciava e selecionava as proposta de colaboração para submeter às reuniões semanais da redação, assegurava a correspondência, coordenava a impressão e expedição da revista, secretariava a realização de diversos encontros e eventos, nomeadamente o "Prémio Literário Vértice". Assegurava também, no Porto, a ligação com Armando Alves, autor da capa.

As instalações da revista eram num segundo andar da Rua Fernandes Tomás, na parte interior da couraça árabe. A revista tinha passado recentemente por uma renovação, com afastamento do temperamental e "estalinista" Joaquim Namorado. O diretor cerimonial era agora Ivo Cortesão (da geração fundadora), mas a condução dos trabalhos era claramente de António Avelãs Nunes. Via-se que era ele quem detinha o encargo político de gerir aquilo. Quando achou que não tinha ali mais condições, o título transferiu-se para Lisboa, para o controlo mais direto da Soeiro Pereira Gomes. Passado pouco tempo, a maior parte dos mais destacados membros da redação coimbrã renegaram por completo o marxismo.

Enquanto trabalhou na Vértice esteve muito a par da produção literária nacional. Para isso leu muitos livrinhos medíocres, é certo. Tinha acesso a revistas internacionais, sobretudo latino-americanas. Conheceu, a partir daí, toda a tradição marxista portuguesa, sobretudo na sua vertente cultural. Então, ou mais tarde a partir de raízes criadas nesse tempo, leu Bento de Jesus Caraça, Jofre Amaral Nogueira, Vasco de Magalhães-Vilhena, Mário Dionísio, Álvaro Cunhal, Maria Lamas, Fernando Lopes-Graça, Fernando Piteira Santos, Mário Sacramento, Victor de Sá, António José Saraiva, Óscar Lopes, António Borges Coelho, Armando Castro, Flausino Torres, Egídio Namorado, José Rodrigues Miguéis, João José Cochofel, o primeiro Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Alves Redol, Manuel da Fonseca, José Gomes Ferreira, José Saramago, Arquimedes da Silva Santos, Alfredo Margarido, João Martins Pereira, entre muitos, muitos outros. A imensa riqueza imagética e conceptual do comunismo português não se deixará nunca encerrar num único e rígido cânone cerimonial, sob a égide de uma única das personalidades atrás citadas.

Publica na revista Vértice largas dezenas de artigos de recensão de livros e revistas, crítica literária ou de espetáculos, bem como poesia e diversos ensaios sobre juventude, movimento estudantil, tendências de desenvolvimento social, etc.. Colabora também no suplemento cultural "Ler e Escrever" do Diário de Lisboa, no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, no suplemento cultural de O Diário, no Jornal de Notícias, no suplemento cultural de O Comércio do Porto, no Jornal das Beiras e noutros periódicos.

Em 1983 adere à Juventude Comunista Portuguesa, em Coimbra. Isso não agradou muito ao aparelho, que preferiria continuar a controlá-lo à distância. Também ele não ganhou nada com isso, porque nunca participou em qualquer discussão ou deliberação política interna importante. Quotas, nunca ninguém lhas pediu.

Concluiu a sua licenciatura em Direito, no ramo de Ciências Jurídico-Económicas, no dia 10.07.1985, com a classificação final de 13 valores. O último exame foi, naturalmente, de Direitos Reais, com o seu exigente amigo Prof. Orlando de Carvalho.

De entre as pessoas com quem manteve em Coimbra algum contato significativo merecem referência João Pedroso, João Romão, Jorge Almeida, Guilherme Figueiredo, Branca Macedo Varela, Margarida Gaspar, António Augusto Barros, Alexandre Ramires, Vasco Santos, Júlio Henriques, Delfim Sardo, Natália Gravato, Helder Coelho, António Pedro Pita, Maria José Ribeiro, Henrique Seixas Meireles, Boaventura de Sousa Santos.

A sua passagem por Coimbra não se deu sem algumas fortes machadadas na sua saúde mental. Via-se constantemente observado, boicotado e implacavelmente perseguido. Tinha a impressão de que a sua presença física, a sua própria vida mental, tinha sobre os outros um impacto extra-sensorial. Superou esses problemas sem recurso a qualquer ajuda. De alguma forma, absorveu essas suas perceções passando a viver com elas naturalmente. A doença teria talvez algum fundamento real, dialético. Que sabemos nós? Houve que criar asas para tentar planar sobre o abismo. Aprendeu a arte do riso e da esquiva. Mas a ideia do suicídio aflorou nele por esses anos com alguma recorrência, chegou a fixar-se, desvanecendo-se logo depois.

Restabelecido o equilíbrio, com algum custo, era absolutamente evidente que o seu caminho, se algum, iria ser solitário. Estava-lhe, naturalmente, interdito aspirar a qualquer posição de proeminência pública. A fama, na verdade, nunca o seduziu. A modéstia, ainda que forçada, era para si um ativo. De modo algum um cerceamento desesperante.

Os cinco anos de Coimbra, no seu conjunto, formaram como que o buraco negro onde naufragou a sua juventude, sufocada pelo medo. Durante muito tempo evitou esta cidade. Depois apercebeu-se de que não a conhecera verdadeiramente. Não calcorreara a Alta. Não visitara peças essenciais do seu património histórico, arquitetónico e sentimental. Procurou então desesperadamente ser ainda coimbrão, à procura do tempo perdido.

De regresso ao Grande Porto, continuou em estado de fragilidade emocional por mais alguns anos. Estagiou para a advocacia num escritório partilhado com o seu colega coimbrão Guilherme Figueiredo (futuramente bastonário da ordem), sito à Rua do Campo Alegre, no Porto. Era um escritório fundado por António Macedo Varela, com algumas ligações evidentes ao PCP e dispondo de algumas avenças sindicais. Passavam por lá João Semedo e os poetas Amadeu Baptista e Jorge Velhote.

Em 1986 é galardoado com o Prémio Literário Manuel Laranjeira, instituído pela Câmara Municipal de Espinho, por uma obra em poesia com o título de "O Ídolo da Juventude". Este livro, porém, não será publicado.

Em 15.05.1987 conclui o seu estágio para a advocacia, com uma dissertação sobre o tema "O Direito, a Justiça e a Liberdade", depois publicado pela revista Vértice (edição de Lisboa). Publica também poemas no suplemento cultural de O Comércio do Porto e na revista Sempre.

Participa em reuniões do Setor Inteletual do Porto do Partido Comunista Português, secretariadas por Nelson Amador. Aí estabeleceu cumplicidade com um Armando Castro já bastante idoso. Deixa de militar neste partido em 1986. Havia nesse tempo grandes processos de dissidência em curso, com ampla expressão pública. Não lhe despertaram o mínimo interesse. A sua porta de saída foi exclusiva e até em sentido bem diverso.

Cineclube

É membro da Direção do Cineclube do Porto entre 1986 e 1989, acumulando com o cargo de diretor da sua revista de cultura cinematográfica Cineclube. Guilherme Figueiredo era o presidente. Aí fez amizade com Danyel Guerra e com os irmãos Adriano e Paulo Teixeira de Sousa. Para não perder mesmo nada, associa-se também no dissidente e rival Cineclube do Norte. Por vezes foi a reuniões internacionais de cineclubes.

No âmbito das atividades cineclubistas, participa na programação das exibições semanais, bem como na organização de ciclos temáticos especiais e outros eventos. Coordena a edição de todos os materiais de informação e crítica cinematográfica, designadamente as folhas de sala. Os seus realizadores de máximo culto são Visconti, Antonioni, Fassbinder, Tarkovski, Kurosawa.

Pelo final dos anos 1980, a leitura de supetão de toda a obra de Friedrich Nietzsche deixa uma impressão tão profunda que o deixa em estado de levitação física por alguns meses. Gilles Deleuze também ajudou.

Abre escritório de advogado, na Rua Formosa, na cidade do Porto, em Janeiro de 1988, por trespasse financiado pelos seus pais. Era perto do cruzamento com a Rua do Bonjardim, a meio do caminho entre a Câmara do Porto e o Bolhão. Muito depressa se desvaneceu a ideia de que os clientes iriam aparecer naturalmente uns atrás dos outros, atraídos por uma placa afixada na fachada do prédio.

Entre Junho e Novembro de 1988 exerce funções administrativas, em regime de ocupação temporária, numa autarquia local. De Novembro de 1988 a Fevereiro de 1989 faz revisão de provas tipográficas no jornal O Primeiro de Janeiro, à Rua de Santa Catarina, no Porto.

Interessa-se pelo romance histórico de cariz regional e pelo ethos nortenho. Lê muito Camilo, Aquilino, Arnaldo Gama, Teixeira de Pascoaes, Soares de Passos... Altos cipestres. Negrume granítico, névoa e romantismo.

Entre Fevereiro e Agosto de 1989 é membro da Redacção do jornal diário O Século (Delegação Norte, dirigida por Mário Moreira) e escreve quotidianamente neste periódico, tendo obtido o título provisório de Jornalista Estagiário. Frequenta a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, onde trava amizade com José Viale Moutinho.

Inicia funções como Técnico Superior (Jurista) num Município da área do Grande Porto, onde desempenha tarefas de consultoria jurídica no seu Departamento Jurídico. Passados poucos anos seria deslocado daí e passaria por vários outros departamentos. Acredita firmemente no serviço público, na democracia e no municipalismo. Encarou, pois, este emprego como sendo adequado à sua postura cívica. Sempre o levou muito a sério, dedicando-lhe o melhos do seu esforço e talento. As suas "obras completas" de serviço devem somar prateleiras inteiras de copiosos volumes. Com o tempo, aprendeu a não pugnar com excessivo encarniçamento pelas suas próprias conceções sobre o bem público no local de trabalho. Manter, tão só, uma reserva mínima de dignidade e de integridade já é uma tarefa bastante exigente.

Actividade literária esparsa, ensaísmo filosófico e político-filosófico, intervenções radiofónicas.

Participa na tertúlia literária do Café Majestic, com António S. Oliveira (A. Dasilva O.), Bernardino Guimarães, Gilberto de Lascariz, Marcelino Valente, Álvaro Holstein Ferreira, José António Afonso e José Emílio-Nelson, entre outros. Lê e relê Sófocles, Cervantes, Stendhal, Tolstoi, Baudelaire, Hölderlin, Thomas Mann, Robert Musil, James Joyce, Herman Melville, T. S. Eliot, Hermann Broch, Kafka, Céline, Pessoa, Jorge de Sena, Júlio Cortázar, Juan Rulfo, Malcolm Lowry, Hans Magnus Enzensberger, e muitos outros.

Lia todas as edições da New York Review of Books, do Magazine Littéraire, da Lettre Internationale, de La Quinzaine Littéraire, da Colóquio/Letras e Colóquio/Artes. Leu os livros de divulgação científica da Gradiva quase todos, para além da revista Science & Vie mês após mês. Informava-se, apreciava e procurava formar um gosto próprio em teatro, bailado, artes plásticas e música erudita. Era um perfeito cavalheiro. Mas este ideal queiroziano de Fradique Mendes deixava-o em estado de grande insatisfação. As prevenções de Nietzsche contra os poetas - de que muitos deles turvavam as suas águas para dar uma ilusão de profundidade - tiveram também a sua ressonância.

Lê as obras essenciais de Sigmund Freud e as polémicas do psicanalismo. Passa por um período de grande descrença nas virtualidades da intervenção política organizada. No entanto, tinha uma grande apego ao pensamento e à arte. Volta a namorar com o existencialismo, com o situacionismo de Debord e Vaneigen.

Última Geração

É membro do Conselho de Redacção da revista Última Geração, publicação de vanguarda literária dirigida no Porto por António S. Oliveira. Publica aí numerosos trabalhos poéticos, ensaísticos e algumas traduções. Oliveira é um antigo colega do liceu, que não suspeitava pudesse ter uma cultura literária tão profunda e requintada. Estabeleceu amizade com ele após o regresso de Coimbra. Continuaria a colaborar nas suas iniciativas posteriores, designadamente nas Edições Mortas e nas revistas Piolho e Estúpida.

Participa nas "Conferências do Inferno", organizadas pela revista Última Geração, no Porto, em 1990 e 1994. Estas conferências tiveram um lugar de destaque na afirmação da geração literária portuguesa que chegou à maturidade já na ressaca da revolução de abril, aí se incluindo Fernando Guerreiro, Paulo Varela Gomes, António Guerreiro e A Dasilva O. Como participantes mais seniores, estiveram ainda presentes João Bernardo, Jacinto Rodrigues, José Paiva e Alberto Pimenta.

Publica um livro de poemas intitulado Exílio de Caim (Black Sun Editores, Lisboa, 1992). Engloba "O Ídolo da Juventude" e é como que uma súmula poética da sua traumática experiência coimbrã. Colabora no volume "Ícones", coletânea de nova literatura portuguesa publicada por Quatro Elementos Editora, Lisboa, 1994. Dá início à publicação de uma obra de ficção científica - 'Angelus Novus' (Edições Mortas, Porto, 1995). A partir daí não sentiu mais necessidade de escrever poesia. Fê-lo apenas ocasionalmente.

Participa, durante um breve período, nas actividades do grupo de reflexão e ativismo político "Inquietação", no Porto, com Paulo Esperança, Luís Chambel, Tino Flores e Herculano Lapa.

Política Operária

Em 1992 começa a colaborar regularmente na revista comunista Política Operária, dirigida por Francisco Martins Rodrigues. Avista-se com ela pela primeira vez algum tempo, no átrio da Estação de S. Bento, no Porto. O Chico vinha muito alegre, com grande expetativa nesse encontro, identificando-se com a exibição de um exemplar da revista. Pela sua parte, a colaboração com a Política Operária é a renovação do compromisso com a ação política e a reflexão teórica na senda aberta pelo pensamento de Karl Marx. Absorvida definitivamente a queda do muro de Berlim, busca agora um novo classicismo marxista, liberto de toda a ganga revisionista do tardo-sovietismo.

Encontrara o seu caminho e estava em vias de criar a sua voz própria, audível apenas em círculos muitíssimo restritos, quase confidenciais. Este silenciamento será duro, naturalmente, mas em certo sentido lógico e até inevitável. Esta voz será incómoda para todo o espetro dos poderes e estabelecimentos, inclusivamente (senão sobretudo) à esquerda. Agora havia mesmo razões contra ela. O silêncio envolvente operará como garantia. O que terá a dizer tem de ser sem compromissos, não podendo correr o risco de se deixar embotar pela lisonja ou pela cooptação. Por outro lado, o anonimato oferece-lhe também garantias de segurança física contra a violência, que é algo que outros revolucionários nunca tiveram. O pior será mesmo encontrar sempre a mais absoluta falta cooperação, de qualquer tipo.

Aprofunda continuamente os seus estudos de história e teoria do socialismo, em particular a partir da ascenção do movimento operário no século XIX. Lê ou relê atentamente Marx, Engels, Bakunine, Proudhon, Kropotkine, Bernstein, Bebel, Kautsky, Plekhanov, Lenine, Trotsky, Bukharine, Estaline, Luxemburgo, Mao Zedong, Lukács, Korsch, Gramsci, Pannekoek, Althusser, Balibar, Poulantzas, Samir Amin, Arghiri Emmanuel, Charles Bettelheim, a Teoria da Dependência, Fidel Castro, Che Guevara, Paul Sweezy, Ernest Mandel, Daniel Bensaïd, etc., etc.. Há grandes escritores na tradição marxista. Mas o supemo prazer é ler Marx.

No âmbito das iniciativas da revista Política Operária conhecerá, ou reencontrará, ao longo de muitos anos, Ana Barradas, António Barata, Manuel Raposo, José Mário Branco, Manuel Vaz, Tom Thomas, João Bernardo, Ricardo Noronha, José Manuel Lopes Cordeiro, Miguel Cardina, João Madeira, António Simões do Paço, Raquel Varela, José Neves e muitos outros.

A partir de Janeiro de 1994, passa a assinar com o pseudónimo Ângelo Novo todas as suas obras de carácter literário ou ensaístico, após um acordo amigável com um seu (até então) homónimo, reputado filósofo lusobrasileiro, alguns anos mais velho. Colaboração esporádica em O Comércio de Gaia e na revista Malasartes (Coimbra).

Desde 1994 vive maritalmente com uma colega de trabalho, com quem se casa em Janeiro de 1998. Têm um filho menor a cargo, fruto de um anterior casamento dela. A constituição desta família abriu-lhe novos horizontes e proporcionou-lhe uma base de companheirismo e estabilidade emocional de um relevo inestimável. O amor confia, persiste e perdura. Não o julgara possível até aí. Torna-se-lhe imprescindível.

Estabelece amizade e mantém convívio próximo com gente trabalhadora - pescadores, calceteiros, bombeiros, etc. - passando a apreciar muito melhor os modos populares de sociabilidade e expressividade. Os seus anos como "doutor" tinham-no talvez afastado um pouco. A intimidade com a pobreza é uma grande universidade para todo aquele que tem preocupações de ordem pública. Em especial para revolucionários.

No verão de 1994 assiste em Londres ao grande evento "Marxism", organizado pelo Socialist Workers Party, onde escutou palestras de grandes nomes da intelectualidade socialista anglo-saxónica, como Tony Cliff, Tony Benn, Christopher Hill, Jeremy Corbyn (que viria a estar próximo de aceder ao poder, quase trinta anos depois), George Galloway, Susan George e Alex Callinicos. Entrevista Chris Harman para a Política Operária. Gostou de visitar a Londres popular e multicultural.

No verão de 1995 visita Cuba, em pleno "período especial". Vê de muito longe Fidel Castro discursar à multidão. Acamaradou com a juventude comunista. Falou com toda a gente. É espantosa a espontaneidade e a liberdade no convívio de rua dos cubanos. O malecón é todo um mundo. Na pobreza, um tu cá tu lá sempre paritário, aberto e normalmente bem informado, entre toda a gente. Talvez seja essa a maior conquista do socialismo, neste país amassado no genocídio, na escravatura, no despotismo colonial, na exploração extrema, na prostituição e na servidão ao imperialismo estrangeiro.

Publica um volume com traduções suas de algumas cartas e poemas de Arthur Rimbaud, Cartas do Visionário e mais Nove Poemas (Fora do Texto, Coimbra, 1995). Fez amizade com Júlio Henriques e Joëlle Ghazarian.

Desde 1996, participa assiduamente na internet em diversas listas de correio electrónico de debate marxista, nomeadamente a Marxist List, animada por Louis Proyect. Aí faz amizade com Nestor Gorojowsky (Buenos Aires), Bruce Hantover (Seattle) e Philip Ferguson (Christchurch - NZ). Dialoga por correio eletrónico com Joseph Green, da revista Communist Voice (Detroit). É assinante e/ou reúne grandes coleções das revistas Monthly Review, International Socialism, Socialist Register, Science & Society, New Left Review, Against the Current, Communist Voice, Historical Materialism, Notebooks for Study and Research, Actuel Marx, Le Monde Diplomatique, Inprecor/International Viewpoint, El Viejo Topo, outras mais ainda.

Nesse ano de 1996, tem um debate político aceso com o comunista de esquerda francês Claude Bitot nas páginas de Política Operária. Mais tarde encontra-se com ele em Paris, muito amigavelmente. Sua esposa fotografa-o e a fotografia aparece publicada na Política Operária para grande desespero do retratado. Os bordiguistas fazem dogma absoluto de um estrito secretismo.

Em Julho de 1997 transfere o seu escritório de advocacia para a sua residência, em Vila Nova de Gaia, na fronteira entre Mafamude e a Oliveira do Douro da sua infância. A sua carteira de clientes pagantes não justifica um escritório arrendado no centro do Porto, nem deslocações diárias para ele.

Polémica muito agreste com Francisco Martins Rodrigues nas páginas de Política Operária. A relação pessoal salva-se in extremis com uma intervenção providencial de sua esposa, que os reconciliou com desarmante persuasão, em plena rua, perto do Elevador de Santa Justa.

É candidato pelas listas da CDU, como independente, nas eleições autárquicas de 1997 e 2001, convidado por Jorge Sarabando.

Traduz O Capitalismo Histórico seguido de A Civilização Capitalista, de Immanuel Wallerstein, publicado em 1999 pela editora Estratégias Criativas.

O Estranho CasoO Estranho Caso.b

No ano seguinte publica um volume de ensaios politico-filosóficos sob o título O estranho caso da morte de Karl Marx (Edições Mortas, Porto, 2000). São artigos da Política Operária expandidos ou intervenções na internet traduzidas e polidas para a língua portuguesa. Mereceu uma única recensão, de Francisco Martins Rodrigues, naturalmente. Talvez um dia seja considerada uma obra de charneira, uma ponte entre duas gerações de pensadores marxistas portugueses.

Firma amizade com o pernambucano Ivonaldo Leite, por ocasião da sua estadia no Porto (1999-2003) para realizar um doutoramento em Ciências da Educação. Ele era já leitor da Política Operária no Brasil e procurou-o expressamente. É uma das mais duradouras e proveitosas amizades pessoais e intelectuais que tem mantido. Prova definitrivamente que estas são, enfim, possíveis.

A partir de Maio de 2001 inicia uma investigação aprofundada com vista a escrever uma biografia intelectual de Karl Marx. A obra interrompeu-se, depois de concluídos alguns capítulos. No capítuo IV há alguma colaboração de João Valente Aguiar. Realiza também estudos e reflexão ensaística sobre o comunismo e a teoria da transição.

Colaboração esporádica com o boletim eletrónico resistir.info, editado então por Jorge Figueiredo, Rui Namorado Rosa e Miguel Urbano Rodrigues. Faz amizade internética com Jorge Figueiredo, mas acaba por romper com Miguel Urbano Rodrigues, que tinha uns modos desagradavelmente patriarcais.

Faz amizade em Braga com Ronaldo Fonseca, após a leitura e recensão crítica do seu livro Marxismo e Globalização, em finais de 2002. Ronaldo passa a colaborar também com a Política Operária, durante algum tempo.

Publica da revista Vértice, n.º 117, Maio-Junho 2004, um ensaio sob o título 'Que outro mundo é possível?', com propostas estratégicas para a recriação de um movimento comunista global. A ideia geral seria formar uma "esquerda de Porto Alegre" a partir das hostes mais consistentes do movimento reunido em torno do Forum Social Mundial.

A 15 de Outubro de 2004, participa com Francisco Martins Rodrigues e Ronaldo Fonseca num debate sobre "O legado de Marx nos 140 anos da I Internacional dos Trabalhadores", realizado na cooperativa 'Árvore' no Porto. Tom Thomas não pôde comparecer.

O Comuneiro

Em Setembro de 2005, é lançado o primeiro número da revista electrónica 'O Comuneiro', em cujo secretariado da redacção participa, juntamente com Ronaldo Fonseca. No seu início participou também João Valente Aguiar. A revista publicar-se-á sempre semestralmente, em Março e Setembro. Tornar-se-á, ao longo dos anos seguintes, uma publicação reconhecida no mundo de língua portuguesa como espaço de pesquisa e debate teórico ao serviço do movimento global anticapitalista.

Participa no 4.º Colóquio Marx e Engels, iniciativa de âmbito internacional promovida pelo Centro de Estudos Marxistas (CEMARX) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que se realizou nesta cidade paulista de 8 a 11 de Novembro de 2005. A sua comunicação é o ensaio 'Constância, transformação e ruptura'. Faz aí amizade com Armando Boito, Caio Navarro de Toledo, Isabel Loureiro, Marcos Barbosa de Oliveira, Sérgio Lessa, Virgínia Fontes, Valério Arcary e vários outros destacados académicos marxistas brasileiros. Alguns deles tornar-se-ão colaboradores permanentes de O Comuneiro. Ficou fascinado com alguns passeios a pé na cidade de São Paulo, metrópole imensa e caótica fundada pelo português nos trópicos americanos.

Participa numa série de colóquios promovidos pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, em Mossoró (Novembro 2005), onde então lecionava Ivonaldo Leite. Nessa viagem fez amizade com o físico teórico Francisco Piolho. Conheceu a cidade de Natal e um pouco da orla costeira do Ceará.

Depois de recolher materiais e bibliografia, começa a redigir um ensaio sobre a revolução moçambicana de1975-1986, com uma reflexão mais ampla sobre a existência de uma via original africana para o socialismo. Publica no n.º 22 da revista brasileira 'Crítica Marxista' (Maio de 2006), o ensaio 'Novos rumos do comunismo', contendo algumas propostas teóricas com vista a uma estratégia de superação da ordem social capitalista.

Faz amizade em Lisboa com o filósofo João Esteves da Silva, que se torna colaborador permanente de O Comuneiro. O João e a Minô eram, provavelmente, o casal mais distinto da Lisboa dos anos 1960-70. Tinham tudo, mas tinham também uma grande inquietação e inconformismo. Foi um enorme privilégio conhecê-los intimamente, sempre apaixonados, na sua idade mais madura. O João era um tradutor incansável e um pensador sempre heterodoxo que trouxe outras latitudes intelectuais para O Comuneiro. Sobretudo alguma pensée française contemporânea, mas não só.

Em janeiro de 2007 morre o seu pai, de insuficiência cardíaca, no Hospital Santos Silva, em Vila Nova de Gaia. Foi um choque e um genuíno desamparo. Morte de Francisco Martins Rodrigues em Lisboa, a 22 de Abril de 2008. Um segundo pai, em muitos sentidos. Esteve com ele num dos seus últimos dias, já em franca agonia. Colheu o que ambos sabiam ser um último ollhar seu. Era um homem simples, corajoso e tocante. Fez o que teve de fazer com a sua vida. Não poderia nunca fazer de outro modo. Pisou os riscos todos, porque assim lho ditou uma consciência revolucionária irrefragável. Nunca vacilou nas suas convicções. Nunca pôs a hipótese de mudar de vida.

No ano de 2009 inicia investigações sobre a história do pensamento marxista em Portugal, com redação preliminar de alguns capítulos. Organiza um sítio na internet para a publicação anotada de 'Páginas do Marxismo Português'.

Participa no 2.º Colóquio "Os Comunistas em Portugal", organizado pela revista Política Operária, na Biblioteca-Museu República e Resistência, Lisboa, em 26 de Setembro de 2009. Debate um pouco acerbo com João Arsénio Nunes, que quis sair em defesa de Antero de Quental, quando este fora apenas situado nos seus limites. Participa também no 3.º Colóquio "Os Comunistas em Portugal" no auditório da livraria Ler Devagar, espaço LX Factory, Alcântara-Lisboa, a 13 de Novembro de 2010.

Faz amizade com Carlos Sampaio, Regina Maneschy e Maria Helena Maia (mais tarde também Fauze Chelala), do círculo comunista ''Que Fazer', de Belém do Pará. Carlos foi um herói da resistência à ditadura militar. Estes camaradas são muito calorosos e muito bem informados, mas o entendimento teórico com eles não é nada fácil. Em contrapartida, a amizade sim, calha muito bem. Então para quê falar de teoria?

Participa na Conferência Internacional "Greves e conflitos sociais no século XX", que decorreu de 16 a 20 de Março de 2011 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Era mais uma iniciativa da dinâmica Raquel Varela. As comunicações foram publicadas em volume. A sua versava sobre o movimento operário português até ao fim da I República. Publica o artigo 'A agonia de Portugal', no volume 16 da revista 'História e Luta de Classes' (setembro de 2013). Finis Portugaliae. Um mundo para abraçar?

Em 2014 abandona o exercício da advocacia, suspendendo a sua inscrição na Ordem dos Advogados. Por fim, era impossível tratar pessoalmentemesmo mesmo as parcas ações "oficiosas" . Embora tenha visto aprovada a acumulação de funções, na prática torna-se impossível concliar a advocacia com o serviço público de carreira. Globalmente, a advocacia revelou-se uma grande desilusão. Por algumas escassas vezes em que, gratamente, sentiu ter contribuído para fazer luzir a justiça, um enorme oceano de frustração, causado pela rotina, oportunismo, indiferença e mediocridade entronizada. Foi um bom advogado na parte escrita, onde ressaltavam as suas qualidades de polemista. A sua presença na sala de juízo era apenas mediana. Aí se faziam sentir mais a sua fobia da exposição pública e as oscilações graves na sua capacidade de atenção.

No verão de 2014 sofre um agudo episódio depressivo, causado pelo ambiente político geral e por uma sensação claustrofóbica no seu local de trabalho. Eram os duros anos da "tróika". A sua carga horária tinha sido acrescida pelo governo de Passos Coelho. Reencontra Guilherme Figueiredo, por pura casualidade, como se este fosse o seu anjo das horas más.

A Tatuagem

De 10 a 25 de outubro de 2014, participa na peça de teatro 'A Tatuagem', com dramaturgia e encenação de José Carretas, levada à cena pela companhia Panmixia, no CACE Cultural do Porto. Representa o papel de um inspetor da PVDE nos anos 1940. Gostou imenso desta experiência, pelos exercícios, pela excitação do palco, pela concentração artística, pela camaradagem. Talvez lhe tenha salvo a vida. É impossível sabê-lo.

Ainda em colaboração com a Panmixia, no início de 2015, desenvolve trabalho coletivo para a dramaturgia da peça 'O Fluxograma Global', prosseguindo depois individualmente esse esforço com vista à escrita de uma peça de teatro, satirizando a demência neoliberal e, simultaneamente, alguns tiques administrativos colhidos na sua experiência na função pública.

Em finais de 2015 inicia a investigação para o ensaio 'Democracia, capitalismo e revolução', onde procura firmar as bases teóricas para uma estratégia revolucionária gradualista de transição ao comunismo. O ensaio foi publicado em duas partes, nos números 22 e 23 de O Comuneiro, em março e setembro de 2016, respetivamente.

É cada vez mais evidente que a biosfera terrestre corre riscos gravíssimos, na confluência de várias crises civilizacionais causadas pelo modo de produção capitalista. Não se trata já apenas de justiça, mas da própria sobrevivência da humanidade. Retrospetivamente, o seu percurso parece adquirir um certo sentido, quase que uma necessidade. Como dizia Lutero Ich kann nicht anders. Não poderia fazer de outra forma. Seria o seu um destino profético? A ideia parece-lhe absurda ("Bai-ta foder, tás mas é marado dos cornos"). E no entanto recorre ("Ai foda-se, qu'esta merda!"). Despida de toda a carga mística ancestral, o profetismo é, sem dúvida, um elemento essencial na vida moderna. A nossa derradeira esperança, porventura. Mas o que é que se pode esperar de si, em especial?

Já não é jovem. Tanto quanto se consegue aperceber, as suas intervenções não causam qualquer impacto público percetível. Não consegue saber ao certo se não será já tarde demais para que a sua palavra possa ainda contribuir para o cumprimento da finalidade de salvação coletiva a que sempre aspirou. E o que poderá ela trazer de verdadeiramente novo, em relação ao que tantos outros já formularam, de forma bem mais sistemática e informada? Terá ele capacidades de visão estratégica excecionais? E como comunicá-las em tempo útil? Talvez se imponha antes, da sua parte, um gesto. Deverá oferecer a sua vida em sacrifício pelo bem comum? E que garantias tem de que isso resultaria? A sua relação com o suicídio nunca teve grande espontaneidade. Talvez possa chamar a atenção (para as suas ideias, não para si próprio, seguramente) de uma forma mais sensata. Talvez, num golpe de fortuna, possa ainda elocubrar algo de verdadeiramente útil. Com um aproveitamente máximo de todas as suas efetivas capacidades sintéticas. Pensando, repensando, buscando em volta, recombinando.

A interrogação que lhe fica, com uma ponta irreprimível de revolta, é: porque terá a natureza caprichado de forma tão extravagante para o singularizar fisicamente entre o comum dos humanos, fazendo-o por isso passar por tamanhos apertos e tormentos, para afinal ser tão pouca a diferença que, no melhor dos casos, ele será capaz de fazer nas circunstâncias que lhe foram dadas?

Em janeiro de 2017 adquire um pequeno apartamento (T2) de vilegiatura, na vila piscatória de Vila Chã, no concelho de Vila do Conde. É novamente a azáfama e a excitação de uma montagem de casa. Insistiu na escolha de um ambiente mais genuinamente popular. É uma aposta com vários riscos associados. A gente do mar não é naturalmente acolhedora, sobretudo a quem não lhes dá nada e não está sequer disposta a gastar muita atenção com ela.

Em junho de 2017 faleceu o seu bravo companheiro João Esteves da Silva, vítima de uma calamitosa vaga de calor que se abateu sobre o país nesse verão.

Em setembro desse ano inicia a publicação, em O Comuneiro, de uma série de ensaios intitulada 'Outubro e nós', sobre as origens, o impacto e o significado histórico-mundial da revolução soviética de 1917. Esta pode vir a constituir a sua obra magna. É um tour de force histórico que pretende contribuir para abrir caminho a uma reinvenção do projeto comunista no século XXI. Este trabalho teve a sua origem numa proposta de participação num colóquio académico marxista em Lisboa, que acabaria por ser preterida. Sim, depois de década e meia de solidão e de quase clandestinidade, teve a fraqueza de saudar e de querer participar na onda de revivalismo Marx que se fez sentir no país, mais marcadamente após a crise de 2008.

Outro Mundo

Em setembro de 2019 é publicado, pela editora Estratégias Criativas, o seu livro de ensaios Outro Mundo, onde se procura traçar diversas linhas de orientação teórica para a luta anticapitalista contemporânea. Em março de 2020, publica na revista O Comuneiro o seu ensaio 'Em louvor de bárbaros e profetas', propondo uma genealogia histórica e um novo esboço estratégico global para o movimento comunista contemporâneo.

Em maio de 2020 faleceu a sua mãe, vitimada por uma uma doença degenerativa cruel e injusta. Pôs-se à venda a casa dos pais. Para permitir isso, houve que vender, dar ou partilhar com o seu irmão, de forma acelerada, móveis, candeeiros, objetos de todo o tipo. E limpar tudo no final. Todos aqueles pedaços da vida dos pais, e das suas, passaram pelas suas mãos, num relance, num arremate, por vezes com casualidade, por vezes com um indisfarçável aperto no coração.

Em fevereiro de 2021, Outro Mundo é publicado no Brasil, pela editora Lutas Anticapital. Em setembro de 2022, publica em O Comuneiro a primeira parte de 'Que viva Moçambique', uma história deste país africano a que permanece ligado por numerosos laços, tão invisíveis como inquebrantáveis.

Em março de 2024, por convite das coordenadoras de um livro brasileiro, publica em O Comuneiro 'O Estado a que chegamos', um ensaio de teoria política que parte de Poulantzas para fazer uma análise do passado recente e das encruzilhadas históricas atuais, em Portugal e no mundo.

Guerra na Ucrânia e agressão genocida, ainda em curso, na Palestina. Definem-se com clareza as perspetivas de uma derrocada geral do sistema imperialista ocidental. É uma época excitante, sem dúvida. Mas tudo se desenrola de uma forma exasperantemente arrastada. Com incerteza. Com reveses cruéis. Com este espetáculo diário da inominável carnificina humana, servida quase em direto pela televisão fascizante. Que, sedenta e viciada em gore, não se pode permitir reconhecer a humanidade das vítimas. Toda a solidariedade com elas é rigorosamente proibida. Apenas se permite um vil esboço de compaixão, se tanto.

Faz estudos sistemáticos de antropologia e macro-história das sociedades humanas. Tem em vista uma tentativa de compreensão da vertigem dissocietária e suicida em que estão mergulhadas todas as sociedades ocidentais. Talvez nunca venha a ter nada de definitivo e original a dizer sobre isso. Talvez daqui a poucos anos isso não seja assim tão importante.

 

 

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