Introdução

 

 

O perigo fascista ronda perigosamente o Brasil, na sequência lógica da agressiva ofensiva mediático-judiciária da oligarquia. A burguesia brasileira não consegue sustentar um projeto democrático para o país. Caiu a máscara. Continua a querer chamar-lhe democracia (até “regenerada”), mas o que ela pretende mesmo é uma fratura social bem exposta e, a partir daí, o genocídio. Cidadania só para os possidentes. Essa é uma opção que vemos claramente desenhar-se também a nível global, nestes tempos de crise crónica de lucratividade do sistema. Não é só um problema brasileiro, embora aqui se revista com todas as agudas especificidades conferidas pelo peso multissecular do atrofiamento histórico desta formação social.

 

O fascismo combate-se pela mobilização popular nas ruas, mas também, e sobretudo, nem que fosse apenas como medida imediata de autodefesa, pelo esclarecimento e sensibilização paciente em direção ao voto. O fascismo no Brasil não se desafia com bravatas inconsequentes. Sabemos bem que – como os ingleses na Índia colonizada ao tempo de Ghandi - o inimigo continua a ter incomparavelmente mais capacidade do que nós para ministrar a violência organizada. Por vezes tivemos de pegar em armas mesmo sabendo que não podíamos vencer. Não é o caso presente. Nossos mártires são-nos demasiado preciosos para os oferecermos em vão. Lembremos e honremos os heróis da luta contra a ditadura militar, defendendo e expandindo, por meios civis e pacíficos, a democracia e a cidadania popular.

 

O Comuneiro não pode senão saudar calorosamente a poderosa emergência do novo movimento comunalista, defensor e propulsor de uma nova civilização baseada nos bens comuns. Abrimos este número de O Comuneiro com um ensaio de Pierre Dardot e Christian Laval que é uma aguda reflexão de ciência política e direito constitucional em torno do conceito de comum e das suas implicações revolucionárias para o nosso tempo. De seguida publicamos três ensaios provenientes de uma importante obra coletiva intitulada The Wealth of the Commons. Chegará porventura o tempo de fazer uma crítica às limitações, preconceitos e ingenuidades de alguns participantes deste movimento, na medida em que persistam. Para já, o tempo é de saudar, divulgar e debater de forma fraternal as suas ideias, sem arrogância intelectual ou autossuficiência sectária.

 

Michel Bauwens e Franco Iacomella propõem o emergente modelo produtivo “entre-pares” como um antídoto contra a falsa antinomia estatal-privado e a economia política atual baseada na propriedade privada, na acumulação infinita e na escassez autoimposta de inovação. Se está aqui a resposta esperada em termos de novas relações de produção só a luta de classes o poderá determinar, mas os autores parecem depositar mais esperança numa espécie de luta competitiva entre dois modelos empresariais. Stefan Meretz serve-se da sua experiência de ativista e organizador para nos dar conta das suas reflexões sobre a capacidade de modelamento convivial (aquilo que Dardot e Laval denominam o caráter instituinte) dos bens comuns. Finalmente, Ugo Mattei traz-nos uma aprofundada reflexão jusfilosófica sobre os desafios que devemos enfrentar, ao nível da nossa autorrepresentação humana, se queremos efetivamente traçar um novo rumo, não apropriador, na interação entre nós próprios e o ambiente natural que nos rodeia.

 

A humanidade domesticou o fogo, alguns animais, as plantas gramíneas. Depois, numa determinada fase história, domesticou também a maior parte de si própria, aí incluídos os trabalhadores e as mulheres. É esse o neolítico em que ainda nos encontramos, segundo nos afirma o filósofo Alain Badiou. É um sistema velho de mais para continuar ainda a ser suportado. Mas no cômputo geral da história humana, pode não ter sido mais do que uma patologia muito efémera.

 

Ângelo Novo prossegue com a terceira parte da sua pesquisa refletida sobre o significado dos caminhos de outubro para a nossa própria circunstância atual. Desta feita, o objeto em estudo abrange a própria revolução bolchevique, dos decretos sobre a paz e a terra até à morte de Lenine. Aqui se concentra, de forma intensamente dramática, o núcleo essencial desta aventura histórica, dando ocasião a que o autor lance mão de alguns dos seus mais arrojados recursos estilísticos. Na quarta e última parte, abordar-se-á toda a vaga revolucionária do século XX e a espuma que dela ainda persiste, nessa nova vaga em formação para nos transportar ao assalto do futuro.

 

Com tradução e introdução dos nossos amigos do coletivo Cem Flores, publicamos neste número de O Comuneiro um pequeno inédito de Louis Althusser. Trata-se de um pequeno intróito a um manuscrito inédito sobre o imperialismo, escrito em agosto de 1973. A nota mais saliente é a afirmação, não apenas do primado da luta de classes na história, que é uma coisa bem conhecida entre marxistas, mas de que a iniciativa e a primazia nessa luta pertencem à classe dominante. Derrubar a burguesia passará por responder, taco por taco, à sua ofensiva constante, tentando sempre vislumbrar um espaço para lhe arrancar a iniciativa na luta.

 

Marcos Barbosa de Oliveira traz-nos uma oportuna reflexão sobre em que medida o relativismo epistemológico é responsável, enquanto suposto adulto na sala, pelos atuais desmandos da “pós-verdade” e dos “factos alternativos”. O indispensável Prabhat Patnaik considera que, no estudo do capitalismo atual, é tão importante voltar a ler o texto científico de Marx como integrá-lo com o estudo das mais vastas teias de poder imperialista, que o próprio Marx vislumbrou ainda, mas só mais tarde se foram revelando em toda a sua decisiva importância. Rafael Rossi aborda algumas das missões possíveis e impossível que um educador enfrenta, na era capitalista, em sua tarefa de revelar, desalienar e transformar o homem em sua circunstância histórica concreta.

 

Agradecemos toda a divulgação possível do conteúdo deste número de O Comuneiro, nomeadamente em listas de correio, portais, blogues ou redes sociais de língua portuguesa. Comentários, críticas, sugestões e propostas de colaboração serão benvindos. Agradeceríamos em particular a ajuda voluntária e graciosa de tradutores.

 

 

Os Editores

 

Ângelo Novo

 

Ronaldo Fonseca

 

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