A desglobalização em questão(ões)

 

Jean-Marie Harribey (*)

 

O capitalismo globalizado se encontra sem dúvida numa viragem, face à amplitude da crise que ele próprio engendrou. E o altermundialismo que anunciara a catástrofe e inspirara a necessidade da tomada de um outro caminho, também se encontra numa viragem.

Desde o verão de 2007, a globalização da economia se parece mais a um castelo de cartas do que a um edifício cuja construção fora dada como indestrutível e definitiva: o “fim da História económica” se chamava “globalização” e, por natureza, ela teria que ser uma “globalização feliz”. É certo que ela o foi, e o é ainda, mas para as classes dominantes cujos rendimentos, património e poder ganharam alturas incomensuráveis, enquanto que a imensa maioria dos trabalhadores de todos os países viram as suas condições de vida se degradarem relativamente, e mesmo absolutamente, em numerosos casos. Mas a crise das sociedades, sob os golpes da finança, atingiu um ponto limite: as estruturas da economia tremem e o véu ideológico que baralhava as suas representações se rasgou. A finança está nua e ela não consegue criar uma nova roupagem sem reproduzir as causas do seu desastre e daquele em que mergulhou as sociedades.

Os arautos da globalização tiveram portanto que colocar em surdina as suas loas em favor da eficiência dos mercados - embora a mais pequena bonança efémera lhes dê novamente voz e arrogância - e um debate se iniciou à volta da sua antítese: a desglobalização. Este debate tem a originalidade de não opor os fervorosos adeptos da ortodoxia aos “antis”, mas englobar os economistas e políticos que se tinham levantado contra a ditadura dos mercados financeiros, particularmente aqueles que em França, à esquerda da esquerda, tinham combatido o projecto do tratado constitucional europeu e o seu “clone”, o tratado de Lisboa.

Há vários meses, tribunas de imprensa, artigos de blogs e livros colocaram na praça pública os temas do proteccionismo, da saída do euro e da desglobalização (1). Quais são os problemas de fundo que colocam essas propostas? Eles remetem essencialmente para a natureza da crise que assola o capitalismo, ao quadro de regulação necessária e à questão da soberania democrática.

A crise não é uma soma de crises nacionais

Desde o princípio dos anos 1980, as estruturas do capital foram reestruturadas de tal forma que elas produzam a rentabilidade máxima dos investimentos e, sobretudo, das colocações financeiras. A criação de “valor para o accionista” é a linha de conduta que se impôs no mundo inteiro, enquanto a desvalorização da força de trabalho era sistematicamente orquestrada e praticada, esta permitindo aquela, à medida que a liberdade de circulação de que gozavam os capitais tornava possível a colocação em concorrência dos sistemas sociais e fiscais.

É isto que se designava pelo eufemismo de “globalização”: o relançamento do capitalismo à escala mundial para remediar a uma crise da taxa de lucro que grassava na charneira dos anos 1960-1970, a vitória das classes dominantes cujos activos financeiros têm a primazia sobre os salários, as condições de trabalho e a protecção social, além da obrigação imposta às estruturas de regulação de se conformarem daí para a frente com as exigências dos mercados.

A finança exige taxas de remuneração anuais de 15 a 20 por cento; o sistema bancário é inteiramente privatizado para colocar a criação monetária ao serviço quase exclusivo da especulação e da reestruturação permanente do capital; as aposentadorias e a segurança na doença são condenadas a terminar nas garras dos fundos de pensão e das companhias de seguros; os orçamentos públicos são constrangidos à austeridade para poder baixar a fiscalidade que pese sobre os ricos e passar a esponja nos défices bancários.

Duas décadas foram suficientes para erguer este andaime, cuja fragilidade está à medida da sua demência: desde meados da década de 2000, a taxa de lucro cessa de subir nos Estados Unidos e o crédito concedido aos pobres para paliar as insuficiências dos salários não é mais suficiente para absorver a sobreprodução industrial. A crise está lá e se propaga à velocidade da circulação dos capitais. A explosão das dívidas públicas tem portanto a sua origem (2), não em despesas públicas e sociais estruturalmente demasiado elevadas, mas nas políticas de abaixamento da fiscalidade progressiva, no endosso à colectividade das dívidas privadas e nos planos de austeridade que provocam as mesmas hemorragias a que se referia Molière: “Clysterium donare, postea seignare, ensuitta purgare(3).

Por outro lado, não há razão de falar propriamente de crise grega, crise irlandesa, crise portuguesa, crise espanhola, etc.. A crise não é uma soma de crises nacionais que se desencadeariam apenas pelos problemas específicos internos a cada país; nesse caso então teríamos de indagar porque razão elas se manifestavam simultaneamente.

A crise é desde logo e directamente reportada a um capitalismo chegado à “maturidade” mundial, sendo que a lógica da criação de valor para o accionista - sem falar do accionista especulador – foi levada ao seu paroxismo porque tudo estava destinado a se transformar em mercadoria, desde a produção de bens e serviços de base até à saúde, à educação, à cultura, aos conhecimentos, aos recursos naturais e ao conjunto da vida. Esta colocação da sociedade - das sociedades - sob o domínio da finança produziu uma crise em que cada dimensão reforça a outra: dimensão financeira, económica, social e ecológica. O mito da capacidade da finança em engendrar riqueza e estabilidade se afundou e a crença na autonomia da finança em relação ao sistema produtivo se revelou completamente falsa.

A globalização não se reduz portanto à livre troca de mercadorias, ou seja, à sua circulação. Trata-se do processo de produção e de realização do valor (4). É a razão pela qual podemos estimar que a finança “autonomizada” foi alcançada pela lei do valor, ou seja, por um duplo constrangimento, hoje indissociável: é preciso extrair valor do trabalho, o qual não pode ser espremido até ao infinito, sobre uma base material que se degrada ou que se vai tornando rarefeita. A crise financeira tem portanto, subjacente a ela, a sobreprodução capitalista e o impasse de um modelo de desenvolvimento.

Um dos principais argumentos dos partidários de esquerda da desglobalização consiste em imputar as destruições de empregos e a desindustrialização dos países ricos à globalização. “Até metade dos anos 1990, os ganhos de produtividade nos países emergentes não permitiam modificar a relação de forças com os países dominantes. No entanto, após meados dos anos 1990, observamos ganhos de produtividade muito importantes em países como a China ou em países da Europa de Leste. A partir daí, várias actividades produtivas abandonam os países industrializados” (5). Não poderia haver melhor prova de que a inversão da relação de forças entre a classe dominante e os assalariados, nos países industrializados, é anterior de pelo menos quinze anos à emergência em força da China.

Tomando em conta apenas o exemplo francês, a deterioração da parte salarial no valor acrescentado [à volta de 5 pontos de valor acrescentado bruto das sociedades não financeiras, em relação a 1973, e perto do dobro, em relação a 1982 (6) ] e o aumento rápido do desemprego se efectuam durante a década de 1980. Os níveis então atingidos (muito baixos para a parte salarial e muito altos para o desemprego) não serão mais modificados, salvo durante o curto período de 1997 a 2001. É portanto exacto dizer-se que a concorrência das forças de trabalho, que se acentuou ao longo dos últimos anos, reforçou as posições adquiridas pelas classes possuidoras, mas é falso ver nos países emergentes a causa primordial da degradação salarial nos países avançados. Indirectamente, Jacques Sapir confirma aliás, ele mesmo, esta constatação, observando que a correlação entre salários e produtividade “se interrompeu brutalmente em 1981 até 1997” (7).

Este autor caracteriza o período seguinte como “a segunda vaga da contra-revolução conservadora” através da “deflação salarial importada” (8) que afecta as fracas remunerações dos operários e dos empregados, enquanto que os altos salários atingem progressões muito fortes, nomeadamente porque eles, de facto, incorporam elementos da remuneração do capital. Estas tendências contraditórias sobre os salários, cada vez mais polarizados, aparecem disfarçadas na estabilidade aparente da parte salarial global no valor acrescentado, ao longo das décadas de 1990-2000.

No final das contas, durante o longo período aberto pelas políticas neoliberais, as coisas são contrastadas e não obedecem a uma visão uniforme. A violência de classe do neoliberalismo se traduz, com efeito, no seio dos países ricos, por uma repartição capital / trabalho favorável ao primeiro e por uma modificação na repartição interna da massa salarial. Mas este segundo aspecto tem tanto a ver com a posição social que ocupam os altos quadros das empresas, pela sua competência técnica, como com o “dumping social” exterior, do qual são vítimas os assalariados em baixo na escala.

Daí decorre ser necessária alguma prudência teórica para evitar que um conflito de classes seja transformado num conflito de nações, prudência que Frederic Lordon considera como “destinada à inanidade” porque, diz ele, “as estruturas da globalização económica colocam [os assalariados chineses e os assalariados franceses] objectivamente numa relação de antagonismo mútuo - contra o qual nenhuma denegação terá efeito” (9). Embora Frédéric Lordon negue estabelecer um primado entre o antagonismo de classes e o antagonismo de nações, a solução proteccionista que ele propõe consiste de facto a dar prioridade ao segundo. Ora, a natureza sistémica da crise capitalista mundial remete para a relação social fundamental do capitalismo e põe em dúvida a capacidade das populações conseguirem uma saída do sistema pela via nacional.

Mais ainda, a solução proteccionista olvida as fortes contradições que têm que defrontar cada uma das fracções das burguesias europeias. O verão de 2011, com suas graves dificuldades financeiras, ilustra este facto de forma eloquente. Os Estados estão encarregados de fazer pagar a crise às populações; este é o factor unificador das classes dominantes. Mas, por um lado, nenhum governo quer (nem pode) tomar o risco de assumir as consequências de um incumprimento (“défaut”) em relação às dividas soberanas, o qual poderia se propagar amplamente a partir do momento em que rompesse o primeiro elo. Todos eles condenam assim suas economias à recessão. Por outro lado, os bancos - incluindo o BCE- estão sobre a corda bamba, pois que a dinâmica da especulação de que fazem parte os coloca em posição delicada em caso de desvalorização massiva dos títulos públicos que eles detêm. Como compreender esta situação face aos próprios interesses dos detentores do capital?

Podemos fazê-lo se não perdermos de vista que a globalização é muito mais do que uma globalização comercial e financeira; ela é também produtiva, de tal forma que os grandes grupos multinacionais se preocupam pouco das trajectórias económicas nacionais (10). A questão dos espaços pertinentes de regulação e de luta contra a crise é portanto crucial.

Que espaços de regulação face a uma crise mundial

A questão aqui é que as estratégias políticas dizem respeito, ao mesmo tempo, aos escalões nacionais, continentais e mundial. Foi nos Estados Unidos da América, centro de origem da crise mundial e, sobretudo, na Europa, bastião da ortodoxia monetária, que as dívidas públicas explodiram, em razão das próprias políticas praticadas: no seio da União Europeia domina o tríptico formado pela baixa da fiscalidade para os sectores privilegiados, o pagamento pelos estados de dívidas privadas, sem contrapartidas, e uma austeridade mortífera. É nesse contexto que tem lugar uma discussão sobre a oportunidade - para um país por demais fragilizado pela crise, submetido fortemente à especulação - de sair da zona euro, e sobre a instauração do proteccionismo.

O objectivo de retomar margens de manobra em termos de taxa de câmbio, que a moeda única fez desaparecer, pode ser atingido pela restauração da moeda nacional, desvalorizando-a em seguida em relação ao euro? Não é seguro que as vantagens momentâneas compensem os inconvenientes. Entre esses, há que considerar o facto de que a dívida, em euros, será revalorizada. E uma desvalorização da moeda em 10 a 15 por cento não cobriria as diferenças de custo entre as indústrias dos países do centro e aquelas dos países da periferia mundial ou europeia. De tal forma que Jacques Sapir pensa que a inflação “imporá desvalorizações regulares (todos os anos ou em cada 18 meses) cujo objectivo será manter constante a taxa de câmbio real” (11).

Vê-se bem que construir um projecto de transformação social sobre a repetição anual de um programa de desvalorizações não tem sentido. De todas as formas, uma desvalorização apenas produz efeitos em termos de competitividade externa se os outros países não imitarem aquele que desencadeou o processo proteccionista. Esta solução, por um lado, releva de uma estratégia unilateral e, por outro lado, tem poucas possibilidades de resolver problemas sociais que não procedem principalmente da concorrência de países estrangeiros mas sim da violência das relações sociais impostas no plano interno. É um hábito corrente criticar a subvalorização do yuan chinês para explicar os desequilíbrios mundiais, mas não se tratará de um subterfúgio para exonerar de responsabilidade as políticas neoliberais?

Frédéric Lordon recusa a ideia de que haveria um problema de governo mundial e fustiga a “quimera” (12) das instituições internacionais fortes. Estaremos de acordo com ele, se se tratar de rejeitar as manipulações acerca da suposta “governança mundial” ou de condenar os fracassos e as procrastinações do G8, do G20 e de outros conciliábulos dos governos dominantes. Todavia, existe um problema real por superar: o da construção de uma regulação mundial.

Aliás, o período que tanto Frédéric Lordon como Jacques Sapir citam como exemplo é aquele do pós-guerra, marcado pela regulação de tipo keynesiano inaugurada em Bretton Woods, embora as medidas decididas em 1944 não estivessem à altura do que Keynes preconizava sobre a moeda mundial e o retorno ao equilíbrio das balanças de pagamentos.

Dois factos decisivos mostram a urgência de uma regulação, sem esperar que o capitalismo seja abolido ou simplesmente confinado.

O primeiro concerne a agricultura que é hoje caracterizada pela desregulamentação geral do comércio agrícola, tendo como consequências, nos países do sul, a captação das melhores terras para as culturas de exportação em detrimento das culturas para o mercado interno, a baixa da procura solvível enquanto que as necessidades aumentam, e a extrema volatilidade dos preços de base mundiais. Como poderemos imaginar que cada país possa lograr uma relativa autonomia e instaurar uma soberania alimentar se os mercados agrícolas não forem rigorosamente enquadrados, à escala mundial, para retirar os produtos agrícolas (e, para além deles, todas as matérias primas) do domínio da especulação e das incertezas do mercado?

Uma “renacionalização” das políticas agrícolas na Europa (se as tentativas da Comissão tivessem êxito) não nos conduziria a uma guerra comercial ainda mais acentuada? Isto porque, nesse momento, a União Europeia promove as suas exportações de cereais enquanto que os Estados Unidos congelam 30 milhões de hectares, e a Nova Zelândia aumenta as suas exportações de leite para beneficiar do tímido esforço europeu de controlo da produção (13).

O segundo facto diz respeito à luta contra o aquecimento do clima, a qual é obviamente uma questão mundial. Ora, até o presente momento, os fracassos das negociações sobre o após-Kyoto, em Copenhaga em 2009 e em Cancun em 2010, são devidos essencialmente aos conflitos de interesses entre os Estados mais poderosos, os quais estão prisioneiros da sua dependência das exigências dos lobbies e dos grupos multinacionais. A emergência de uma consciência cidadã para a salvaguarda dos bens comuns, dotada de uma visão global, pode pesar sobre estas negociações, por exemplo através do “Apelo da conferência mundial dos povos sobre a mudança climática”, por iniciativa do governo boliviano, em Abril de 2010.

Na realidade, a agricultura e o clima são reveladores da necessidade imperiosa de revolucionar radicalmente o modelo de desenvolvimento subjacente à globalização capitalista. Este aspecto é, na maioria das vezes, completamente ignorado pelos partidários da desglobalização cuja referência principal continua a ser o modelo fordista nacional (que é, de facto, melhor regulado do que o modelo neoliberal) mas que engendrou o modelo produtivista devastador que acabou por se impor por toda parte.

Não basta preconizar a re-industrialização dos países… industrializados; há que reconsiderar o tipo de desenvolvimento industrial. A relocalização de certas actividades é indispensável mas, por um lado, não se pode recriar, com uma varinha mágica, sectores industriais desaparecidos há décadas e, por outro lado, não se pode pensar numa nova divisão internacional do trabalho sem um quadro de negociação susceptível de tomar simultaneamente em linha de conta os imperativos sociais e ambientais numa óptica mais cooperativa do que concorrencial. Nesse aspecto, é paradoxal constatar que os desglobalizadores continuam presos a um esquema de pensamento concorrencial. Estamos portanto confrontados com a definição da maneira como possa se exercer a soberania democrática.

Finalmente, a soberania democrática

Como o problema é colocado pelos partidários da desglobalização? “Seja qual for o nosso pensamento, a solução da reconstituição nacional da soberania impõe a sua evidência uma vez que ela tem, sobre todas as outras, o imenso mérito prático de já estar lá, imediatamente disponível - evidentemente pela via de transformações estruturais que a tornem economicamente viável: proteccionismo selectivo, controle de capitais, controle político dos bancos, tudo medidas perfeitamente realizáveis, se o quisermos” (14).

Os três níveis de transformações estruturais propostos nesta citação são completamente pertinentes. O problema está na “evidência”, no “imediatamente disponível”, no “já estar lá”, quer dizer, o facto de supor o problema resolvido quando o autor havia antes afirmado que a globalização tinha construído “um universo livre de qualquer força política soberana” no qual reinava o lema de “sobretudo há que dizer não ao Estado”. O “evidentemente pela via de transformações estruturais” aparece, no melhor dos casos, como uma atenuante retórica.

Haveria também alguma inconsequência em se desinteressar desta questão de ordem política ao mesmo tempo que se afirma (com razão) que o processo de globalização teve como consequência maior o facto de retirar aos cidadãos toda capacidade de pesar sobre as decisões de organização da sociedade, numa palavra, o facto de esvaziar a democracia da sua substância para confiar as chaves da casa aos mercados financeiros.

O grande obstáculo que os povos têm que superar hoje é, precisamente, o de reconstruir totalmente a sua soberania e não simplesmente de reavivar uma soberania colocada em hibernação. Efectivamente, tudo ou quase tudo está por terra, em termos de soberania democrática. Pudemos constatar tal facto em França onde uma vitória referendária sem contestação em 2005 foi confiscada, alguns meses mais tarde, sem disparar um tiro.

A reconstrução / construção da soberania está por fazer, tanto ao nível nacional como - no que diz respeito aos europeus - ao nível regional, uma vez que o afrontamento com as forças do capital não se joga mais unicamente (nem, talvez, principalmente) ao nível nacional. E, quando fazemos uma abordagem não essencialista do “povo”, mas como fruto de uma construção social histórica, isto não significa desprezar a nação. Não se trata de negar a nação quando colocamos em dúvida a identidade entre nação e povo uma vez que existem nações formadas por vários povos. Não se trata igualmente de negar o Estado-nação pelo facto de constatar o seu carácter contraditório: Estado ao serviço da classe dominante que, apesar disso, é obrigado a proceder a certas arbitragens sociais.

Sem subestimar a acção no seio de cada nação, é preciso lhe retirar qualquer carácter nacionalista, buscando a cooperação com outros países para caminhar no mesmo sentido, tendo-se em linha de conta que existem vários povos a resistir. A contradição que é preciso superar é que, se a democracia se exprime ainda, sobretudo, à escala nacional, as regulações e transformações a operar (nomeadamente ecológicas) se situam para além das nações; daí a importância da criação progressiva de um espaço democrático europeu. Uma vez que a crise não é uma soma de crises nacionais, não haverá saída nacional da crise.

Permanece então a questão de saber por onde começar o trabalho de desconstrução do capitalismo neoliberal. Através de que meios podemos golpear - não este ou aquele país estrangeiro - mas os verdadeiros e únicos responsáveis da crise?

A curto prazo, e de maneira urgente, é preciso declarar ilegítimas a maior parte das dívidas públicas e anunciar que elas não serão pagas, designando os países prioritários a nível europeu, tendo em linha de conta as suas dificuldades. Basear estas decisões sobre uma auditoria geral das dívidas públicas; proceder à socialização de todo o sector bancário europeu. Restaurar uma forte progressividade da fiscalidade. Não há, em relação a tais medidas, nenhuma impossibilidade prática. Falta apenas a vontade política de “eutanasiar a dívida”, na perspectiva da anulação de grande parte desta, face à gravidade da crise (15).

A médio e longo prazo, o processo a desenvolver é o da transformação radical do modelo de desenvolvimento num sentido não-capitalista. A inviabilização das estruturas actuais da finança é o primeiro passo, que poderia ser iniciado com a proibição das transacções especulativas e com a taxação das transacções financeiras restantes. Para além disso, a limitação estrita do espaço mercantil baseado na busca do lucro é indispensável para que possam se desenvolver actividades não mercantis ou orientadas para a satisfação das necessidades das populações, preservando os equilíbrios ecológicos.

Que nome daríamos a todo esse processo? Dizer, como Frédéric Lordon, que isto seria coisa simples, pois à palavra “globalização”, bastaria colocar o prefixo “des”, é simples demais. As protecções que são necessárias (do direito do trabalho, da segurança social, da natureza…) não fazem necessariamente um sistema proteccionista. A ideia de uma selectividade nos domínios a “desglobalizar” ou, pelo contrário, a universalizar, é sem dúvida mais complexa de realizar, mas ela oferece a vantagem de designar os verdadeiros alvos a atingir, em vez de bodes expiatórios. Oferece ainda a vantagem de esboçar uma bifurcação sócio-ecológica das sociedades - em vez de um retorno mítico às ilusões produtivistas – a partir da qual se poderá construir, passo a passo, uma cooperação internacional digna desse nome.

Pensamos que conserva a sua validade aquilo que chamamos alterglobalização, que não renuncia, nem uma polegada, na sua crítica à globalização, sem no entanto acreditar na pertinência do seu aparente oposto.

 

 

(*) Jean-Marie Harribey é um economista francês, mestre de conferências na Universidade Montesquieu – Bordeaux IV. As suas pesquisas são no domínio da crítica da economia política, os conceitos de valor e de riqueza, o trabalho, a protecção social e o desenvolvimento sustentável. Entre 2006 e 2009 foi co-presidente da ATTAC-França, com Aurélie Trouvé, sendo actualmente membro do seu conselho científico. É membro da Fondation Copernic. Entre os seus livros contam-se ‘L’économie économe, Le développement soutenable par la réduction du temps de travail’ (L’Harmattan, 1997), ‘Le développement soutenable’ (Economica, 1998), ‘La démence sénile du capital’ (Le Passant Ordinaire, 2002) e ‘Raconte-moi la crise’ (Le Bord de l'eau, 2009). É colaborador habitual da revista ‘Alternatives Économiques’, em cujo sítio na rede mantém um blogue pessoal. O presente artigo foi originalmente publicado na revista ‘Le monde diplomatique’, outubro de 2011. Tradução de Ronaldo Fonseca.

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NOTAS:

(1) Entre os textos que, desde há um ano, abordaram este tema citamos: J.-M. Harribey, ‘Il faut coincer les serial killers, Dezembro de 2010; Pierre Khalfa, ‘Vouloir quitter la monnaie unique est un mirage dangereux’, l’Humanité, 14 de Janeiro de 2011; Jacques Sapir, ‘S’il faut sortir de l’euro…’, 6 de Abril de 2011; Thomas Coutrot, ‘Le programme Dany Boon’, Politis, nº 1148, 14 de Abril de 2011; J.-M. Harribey, ‘Sortir de quoi? À propos de la discussion sur la sortie de l’euro proposée par Jacques Sapir’, 28 de Abril de 2011; J.-M. Harribey, ‘Sortir de l’euro et sortie de route’, 2 de Maio de 2011; Jacques Sapir, ‘La démondialisation’, Paris, Seuil, 2011; Arnaud Montebourg, ‘Votez pour la démondialisation’, Paris, Flammarion, 2011; Geneviève Azam & alli, ‘La démondialisation, un concept superficiel et simpliste’, 6 de Junho de 2011; Frédéric Lordon ‘Qui a peur de la démondialisation?’, 13 de Junho de 2011; J.-M. Harribey, ‘La démondialisation heureuse? Élements de débat et de réponse a F. Lordon et a quelques autres collégues’; Frédéric Lordon, ‘Comment rompre avec le libre échange. La démondialisation et ses ennemis’, Le monde diplomatique, Agosto de 2011. Há uma tradução em língua portuguesa deste último artigo neste mesmo número de ‘O Comuneiro’.

(2) Ver Attac, ‘Le piège de la dette publique; comment s’en sortir’ Paris, Les Liens qui libèrent, 2011.

(3) Molière, ‘Le malade imaginnaire’, Troisième intermède, 1673.

(4) J.-M. Harribey, ‘Crise globale, developpement soutenable et conceptions de la valeur, de la richesse et de la monnaie’, Forum de la Régulation, Paris, 1 e 2 de Dezembro 2009.

(5) Jacques Sapir, ‘La mondialisation est-elle coupable?’, Débat entre Daniel Cohen et Jacques Sapir, Alternatives economiques, nº 303, Junho de 2011.

(6) Institut National de la Statistique et des Études Économiques (INSEE), Rapport Jean-Philippe Cotis, ‘Partage de la valeur ajoutée, partage des profits et écarts de rémunérations en France’, 2009.

(7) Jacques Sapir, ‘La démondialisation’, Paris, Seuil, 2011, op. cit., p. 71 e 79.

(8) Ibid., p. 79.

(9) Frédéric Lordon, ‘Comment rompre avec le libre-échange, La démondialisation et ses ennemis’, op.cit..

(10) Michel Husson, ‘Une crise sans fond, 28 de Julho de 2011.

(11) Jacques Sapir, ‘S’il faut sortir de l’euro…’, op. cit..

(12) Frédéric Lordon, ‘Comment rompre avec le libre-echange, La démondialisation et ses ennemis’, op. cit.. Há uma tradução em língua portuguesa deste artigo neste mesmo número de ‘O Comuneiro’.

(13) Ler Jean-Christophe Kroll e Aurélie Trouvé, ‘La politique agricole commune vidée de son contenu’, Le monde diplomatique, Janeiro de 2009; Também Aurélie Trouvé e Jean-Christophe Kroll, ‘Histoire d’un grand bond en arrière’ e ‘Rendre les outils aux États’, Politis, nº 1161, 14 de Julho de 2011.

(14) Frédéric Lordon, ‘Qui a peur de la démondialisation?’, 13 de Junho de 2011.

(15) Ler também, François Chesnais, ‘Les dettes illégitimes. Quand les banques font main basse sur les politiques publiques’, Paris, Raisons d’agir, 2011.