Socialismo ou Barbárie:
objectivismo económico e intervenção
criativa dos povos no desenlace das contradições do capitalismo
Ronaldo Fonseca (*)
Se há um aspecto importante no quadro da obra genial de Marx
e Engels sobre o qual possamos levantar algumas interrogações,
ele situa-se, na nossa perspectiva, à volta da questão
da autonomia relativa (e sua eficácia) da instância política
em relação à instância económico-social,
propulsora e condicionante, em última análise, da marcha
da História. Sabemos bem que, do conjunto da obra de Marx e Engels,
não se pode depreender uma visão económico/determinista
nem teleológica da História e que a autonomia relativa
da instância política, do estado burguês, está
presente em muitos dos seus escritos. Aliás, a formulação
sintética, eminentemente dialéctica e anti-teleológica,
“Socialismo ou Barbárie” de Rosa Luxemburgo, (rejeitada
como idealista e radicalista pela literatura marxista oficial de inspiração
soviética, desde os anos 30), não se baseava em nenhum
catastrofismo momentâneo, antes era uma projecção
das possibilidades tendenciais alternativas para o futuro, estruturalmente
alicerçada. O que não excluía um desenlace anterior
da questão, através da dinâmica complexa e contingente
da luta de classes. Tal formulação foi inspirada na sua
própria leitura da obra de Marx. Convém ainda lembrar
que para o pensamento dialéctico a afirmação da
“necessidade histórica do socialismo”, sendo absolutamente
científica, só se coloca porém na perspectiva das
classes oprimidas, maioritárias e objectivamente interessadas
na tomada da outra via histórica possível, isto é,
a construção de sociedades sem classes, de um mundo equitativo,
racionalmente organizado no plano sócioeconómico-cultural
e ecológico que, como sabemos, exige (como base) a propriedade
pública dos principais meios de produção, troca
e financiamento.
O socialismo não se inscreve objectivamente como uma “necessidade
geral e universal”, planetária. Para as classes dominantes
tal perspectiva não se coloca sequer, (a não ser como
factor de receio) e a hipótese da marcha em direcção
a formas multifacetadas de barbárie (incluindo a dizimação
futura, planeada em laboratório, da maioria da humanidade, tornada
“excedentária” na lógica dos mecanismos do
capitalismo, senil mas durável) é um caminho possível
e que poderá ser por elas encarado como racional e inevitável.
A burguesia imperialista, se não for derrotada, poderá
inclusive,”à la limite”, colocar na ordem do dia
o retorno ao trabalho escravo em amplos sectores populacionais. As privatizações
de prisões nos EUA e a cedência dos reclusos como mão-de-obra
praticamente gratuita a construtores civis é já uma antevisão
sinistra do que pode ocorrer. Aliás não seria a primeira
vez que o modo de produção capitalista se conjugaria com
elementos do esclavagismo. Tal facto existiu, durante o capitalismo
mercantil/colonial nas Américas com massiva utilização
de mão-de-obra escrava nas plantações. A tendência
para a produção de uma catástrofe ecológica,
esta sim, a todos envolveria, seria geral e universal, mas as classes
dominantes pensam poder evitá-la através da ciência
e da tecnologia, da capacidade de adaptação, etc. Da mesma
forma que, o esgotamento do petróleo dentro de décadas,
sendo um golpe para as sociedades industriais tal como as conhecemos,
não seria, por si só, um golpe decisivo no capitalismo,
cujo poder tecnológico permitir-lhe-ia sobreviver, naturalmente
com adaptações profundas e em detrimento dos povos.
Retomando a questão da visão histórica
geral de longo prazo, pensamos que é legítimo interrogarmo-nos
se não haverá em Marx e Engels uma subestimação
do grau de eficácia desta autonomia relativa da instância
político-estatal e seus aparelhos jurídicos, ideológicos
e repressivos, na sua acção de contenção/adiamento/reestruturação
– ainda que historicamente provisórias –, sobre as
manifestações das contradições intrínsecas
ao sistema capitalista na instância económica. Sobretudo
quando, fruto do desenvolvimento desigual e combinado do sistema, esta
autonomia relativa da esfera político-jurídico-ideológico-militar
encontra-se concentrada nas mãos das classes dominantes de poderosíssimos
estados, já no quadro de uma internacionalização
acelerada do capital onde “tudo” começa já
a jogar-se a nível mundial, com a possibilidade de “exportação”
dos efeitos mais graves das contradições, inclusive por
meios extra-económicos, para as vastas periferias dependentes.
Marx empregou várias vezes, as expressões “dissolução”
ou “desagregação” do sistema capitalista,
do “sistema baseado no valor de troca” (por ex. nos “Grundrisse”),
em projecções para o longo prazo, sem associar a esta
“dissolução”, obrigatoriamente, uma concomitante
acção política revolucionária do proletariado;
esta última parece que surgiria mais como acção
complementar aos efeitos das contradições económicas
uma vez atingido um estágio muito avançado. Nas suas análises
de curto prazo, isto é, do seu tempo, Marx obviamente associa
obrigatoriamente as possibilidades de derrube de um capitalismo nacional
às acções revolucionárias prévias
do proletariado como em 1848 e 1871.
Na nossa perspectiva, haveria, naquelas formulações de
longo prazo, uma tendência apontando no sentido de uma visão
geral homogeneizante da expansão do sistema, na qual o peso das
contradições económicas tenderia a impor-se como
cada vez mais constrangedor e decisivo, e uma subestimação
da margem de manobra interventora (que viria a ser crescente) nas mãos
das grandes burguesias, justamente pelo jogo de autonomias relativas
entre estruturas e superestruturas que foram se erguendo ao longo da
História. Particularmente sob o capitalismo, nas suas diversas
fases. O facto de que, mais de século e meio após o “Manifesto”,
o sistema capitalista não tenha dado mostras de estar próximo
de uma “dissolução” e que as perspectivas
socialistas para a humanidade (após graves recuos) continuem
adiadas e aparentemente longínquas, (senão bloqueadas),
tem abalado e reduzido, em geral, a força de atracção
do pensamento marxista.
Lenine, vivendo mais tarde, já sob o imperialismo,
percebeu perfeitamente o núcleo e a dimensão do problema.
É de enorme significado a sua afirmação de que
“não existem situações sem saída para
o capitalismo” e que este, sem a acção criativa,
organizada e revolucionária do proletariado e seus aliados, encontraria,
mesmo nos contextos mais difíceis, soluções de
sobrevivência e de revigoramento (para os seus sectores mais avançados)
pela acção do poder político-militar, mesmo à
custa de devastações e novos passos em direcção
a formas diversas de barbárie. Esta relação dialéctica
(e contingente) entre o objecto e o sujeito, na História, pensada
ao mais alto nível, (veja-se a importância que concede
à “Lógica” de Hegel) está presente
como eixo estruturante de toda a sua obra política e de toda
a sua acção revolucionária. Podemos depreender
do conjunto da obra leninista a sua recusa de toda teleologia na História
e a importância crescente que atribui à criatividade, à
organização (adequada sociologicamente a cada contexto
e cada época histórica e não como dogma intemporal)
da subjectividade progressista/revolucionária, solidamente fundada
na compreensão das características gerais, isto é
da totalidade dinâmica e contraditória, dos mecanismos
do imperialismo e da análise dialéctica de cada contexto
concreto. Lenine, que viveu a catástrofe da 1ª guerra interimperialista
chegou no entanto a prever um desmoronamento mais ou menos rápido
do sistema em alguns países europeus desenvolvidos como consequência
conjugada da desestruturação dos aparelhos de estado,
das contradições inter-imperialistas não resolvidas
e da acção do proletariado. No entanto, já nos
anos 20, rectificou esta perspectiva ao aperceber-se que a guerra devastara
países inteiros, enfraquecera provisoriamente o poder de algumas
classes dominantes mas também alargara o poderio e a margem de
manobra da burguesia imperialista anglo-americana, levando inclusive
à emergência de uma fortaleza e de um gendarme capitalista/imperialista
do outro lado do Atlântico. E que a maioria do proletariado dos
países desenvolvidos continuava amarrado a perspectivas reformistas
(quando não chauvinistas) deixando isolados face à repressão
os sectores revolucionários. Reformismo que tinha a sua base
material no próprio contexto do proletariado dos países
centrais (melhoria relativa – apesar da exploração
– nos seus padrões de vida gerais em comparação
com a miséria do século XlX, etc.), não sendo um
simples produto subjectivo da traição dos chefes social-democratas.
Lenine, tendo em conta a reflexão de outros importantes estudiosos
do imperialismo do seu tempo como Rosa Luxemburgo, Bukarine e Hilferding,
desenvolve a sua obra, apercebendo-se de que, com a emergência
do imperialismo, a expansão capitalista tomara definitivamente
um carácter polarizante e não homogeneizante e que a margem
de intervenção das classes dominantes imperialistas sobre
as contradições do sistema tornara-se muito mais significativa.
E, à medida que a evolução do sistema complexificava-se,
mais importante e decisivo seria o papel do factor criativo/consciente/organizado,
segundo os condicionalismos de cada época histórica, para
ir alterando a correlação de forças e eventualmente
abrir caminho para o socialismo. Isto é, a revolução
proletária exigiria tácticas, estratégias e alianças
(ainda que temporárias conforme cada situação)
para abrir o seu caminho face às classes dominantes muito mais
poderosas (através do domínio plurifacetado do Estado)
e cujo modo de produção não se desagregaria “naturalmente”.
Mais ainda, a possibilidade de rupturas na cadeia imperialista dar-se-ia
em primeiro lugar e durante todo um período histórico
nas países periféricos, nos elos fracos desta mesma cadeia,
lá onde as condições existentes não permitiram
uma sedimentação do moderno estado e instituições
burguesas como nos países centrais e onde a massa de oprimidos
oscilava entre a passividade e o radicalismo. Ele tinha porém
consciência da complexidade da estrutura de classes e camadas
sociais nestes países moldados no quadro do colonialismo e do
imperialismo, da necessidade de blocos sociais isolando as burguesias
capatazes e os latifundiários, do papel do proletariado mineiro,
do campesinato, da pequena burguesia e das camadas médias profissionais.
Não é por acaso que acrescenta à divisa de Marx,
”proletários de todos os países, uni-vos”,
a divisa, povos das nações oprimidas, uni-vos.”
Lenine (justamente porque captara profundamente o método marxista
e vivera no contexto histórico seguinte), apoiando-se na sua
praxis revolucionária, nos seus estudos conjugados com os de
outros pensadores e revolucionários do seu tempo, conseguiu prever
as grandes linhas que tomaria o desenvolvimento capitalista/imperialista
nas novas condições históricas, que, no essencial,
Marx não pudera visualizar. Lenine (e os vários pensadores
que posteriormente situaram-se, criativamente, no sulco do seu pensamento)
não colocou minimamente em causa o âmago do pensamento
teórico/metodológico de Marx, antes situando-se nessa
mesma perspectiva, desenvolveu dialecticamente o marxismo após
ultrapassar o que nele havia caducado pelo próprio movimento
complexo da realidade sócio/histórica. Porém, tal
como Atílio Boron (resistir.info, 7/12/04) pensamos que a expressão
“marxismo-leninismo”, longe de ser uma homenagem ao génio
de Lenine, longe de exprimir uma diferença entre revolucionários
e reformistas, foi na realidade uma invenção de Estaline
para melhor legitimar o seu poder no plano ideológico. Não
representa de forma alguma o verdadeiro pensamento dialéctico/revolucionário
de Lenine (profundamente anti-esquemático e antimecanicista)
mas antes a sua domesticação/dogmatização/castração
pelo estalinismo.
(*) Ronaldo Fonseca é um ensaísta marxista de origem brasileira,
residente em Portugal desde 1975. Tem um doutoramento do 3º ciclo
da Universidade de Paris (Vincennes) e foi professor na área
de História e Ciências Sociais na Universidade do Minho
até à contra-reforma educativa dos anos 80. É autor
de várias obras, entre as quais ‘A questão do Estado
na revolução portuguesa’ (Livros Horizonte, 1983)
e ‘Marxismo e globalização (Campo das Letras, 2002).