A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
  Sombras chinesas no mundo
 
 

 

 

Durante as próximas décadas, em grande parte, o destino do sistema capitalista mundial vai jogar-se na China, esse imenso continente, fábrica do mundo que constitui um terreiro de lutas sociais sobre o qual nos chega muito pouca informação fiável.

 

Enquanto no mundo ocidental se experimentam sinais crescentes de esgotamento da acumulação capitalista - com taxas de lucro cronicamente baixas apesar da brutal ofensiva social regressiva em curso desde o final dos anos 1970 -, na Ásia do Sul e Sudeste, o capitalismo dá ainda mostras de uma grande vitalidade, com imensas massas laboriosas a serem sorvidas, ano após ano, a vender pela primeira vez a sua força de trabalho viva ao grande capital transnacional. É aqui que se extrai, às mãos cheias, a mais-valia que vai, ainda assim, animando, com um sopro constante de vida, os circuitos da capitalismo mundial.

 

De toda esta região – que inclui também, em diversas matizes, a Índia, a Indochina e a Indonésia – merece particular destaque a China, por ser o seu centro de gravidade e a unidade política mais forte no conjunto. Por outro lado, é também a sociedade que atravessa uma mutação mais profunda, verdadeiramente convulsiva, com um êxodo rural massivo, cidades em crescimento explosivo, uma transformação geográfica e cultural sem precedentes em tempo de paz.

 

A China atravessou de forma relativamemte incólume a crise capitalista mundial que se declarou em Setembro de 2008. O seu crescimento anual continua a rondar os 8-10% anuais, que é uma taxa vertiginosa e verdadeiramente ímpar, porque sustentada ao longo de muitos anos. Para manter este ritmo de acumulação, num mundo em recessão, a China vai ter de se virar para o alargamento do seu mercado interno. Isto implica uma política de rendimentos e redistributiva conducente à criação de grandes massas consumidoras.

 

Tendencialmente, em mais duas ou três décadas, a China aproximar-se-á, de forma muito notória, do padrão industrial ocidental. Mas isso far-se-á por intermédio de um processo social de tal modo violento e caótico que é impossível prever que se cumpra de uma forma ordeira, com progressão regular. A qualquer momento a caldeira pode explodir, e então não é só a China que estará em causa, mas todo o conjunto do mundo capitalista.

 

É comum ler-se que a China e os E.U.A. são mutuamentre dependentes, que firmaram entre si tacitamente um pacto de cooperação, com base na percepção do imenso desastre que pode significar para ambos uma guerra económica entre si. Essa é apenas a visão vulgar e empiricista da questão. A China detém triliões de dólares em divisas e títulos de dívida pública norte-americana, não estando disposta a largá-los de súbito no mercado, afundando assim o valor desta moeda e mergulhando o mundo inteiro numa profunda depressão. Em certa medida, isso faz dela cúmplice, enquanto credora, da política de agressão permanente e em escalada contínua que se tornou a imagem de marca da decadência do império yankee.

 

Mas a China detém as chaves do nosso presente histórico de uma forma muito mais profunda e estruturante. É neste gigantesco país que a valorização do capital se processa ainda com margens confortáveis, distribuindo grandes massas de lucros para os grandes conglomerados capitalistas de todo mundo. Made in China quer dizer produzido com grandes lucros. É por estas artérias desimpedidas que o sangue capitalista corre mais veloz. É aliás na China que está situado o polo magnético que conduz à perequação descendente dos níveis de vida e de segurança dos trabalhadores em todo o mundo. O Leste já não é vermelho, como no tempo de Mao Zedong. Agora a China significa, para os trabalhadores de todas as nações, salários mais baixos, ritmos de trabalho mais intensos, mais precaridade, desemprego de longo curso, menos assistência social, etc.. É o chicote chinês da “globalização” que faz de todos nós os desgraçados coolies do patronato.

 

A China constitui uma decisiva bóia de salvação para o capitalismo mundial de vários modos. Em primeiro lugar, naturalmente, como reserva de mão de obra barata para capitalistas de todo o mundo, pronta a ser explorada a taxas impensáveis noutros locais, bem disciplinada e versátil, pronta a ser treinada numa ampla gama de competências técnicas. Esta enorme reserva industrial, no activo e ainda em reserva, faz uma grande pressão para a baixa sobre as condições que o trabalhador se vê obrigado a aceitar no mercado mundial, permitindo que a taxa de exploração se eleve um pouco por todo o lado. Finalmente, os produtos feitos na China que hoje em dia fazem parte do cabaz de subsistência normal do trabalhador, em todo o mundo, vêm contribuir para o embaratecimento da produção e reprodução da força de trabalho, permitindo assim uma elevação da mais-valia relativa. Por todas estas razões, a China é hoje um enorme pulmão para o capitalismo mundial, sem o qual a sua subsistência se tornaria muito incerta.

 

No entanto, o caminho da luta proletária não pode ser o da xeno e sinofobia vesga que, infelizmente, vem sendo pregada e praticada por boa parte do aparato burocrático sindical e da velha esquerda neo-estalinista. Felizmente, um pouco menos em Portugal do que noutras paragens europeias, onde isso é moeda corrente, acorrentando-se a esquerda, no campo popular, a um projecto paroquial e defensivo (quando não abertamente racista), deixando as glórias do cosmopolitismo e do humanismo universalista nas mãos hipócritas da burguesia.

 

Em primeiro lugar, porque a China é, por si própria, uma potência imperialista ascendente, rival da “Europa” e dos E.U.A., com interesses parcialmente incompatíveis e concorrentes. Os blocos imperialistas colidem e conluiam-se entre si permanentemente, por vezes de forma sucessiva e quase indistinta. Devemos denunciá-los incessantemente nos seus conluios mas, em caso de colisão, manter sempre uma expectativa atenta, apoiando em princípio o bloco que não é o “nosso”. É nas brechas criadas pela rivalidade inter-imperialista levada ao extremo que têm surgido, quase sempre, as melhores oportunidades para a afirmação do projecto de emancipação social e política do proletariado. Também os povos dependentes, recolonizados e neo-coloniais têm tudo a ganhar com a rivalidade aberta inter-imperialista, sendo hoje em dia inegável o papel progressivo que a China desempenha para a luta desses povos em África, na América Latina e no Médio Oriente.

 

Mas a China interessa ainda ao proletariado mundial de uma forma muito mais directa e decisiva. É das lutas do proletariado chinês - ainda muito desorganizado, sem educação, tacticamente rude, politicamente inocente, mas pleno de força vital – que vai depender em grande medida o mundo em que vamos viver nas próximas décadas, até meados deste século. Este é o lado escuro da história social que se faz no presente, um verdadeiro continente negro sobre o qual pouquíssimas informações nos chegam. Por um lado, porque a burocracia capitalista estatal chinesa reprime de forma violenta e sem piedade os movimentos sociais, abafando por completo qualquer notícia sobre as grandes lutas de classe em curso no seu país. Por outro lado, estas notícias também não interessam, de todo, às grandes corporações noticiosas ocidentais. É uma dupla barreira praticamente impenetrável.

 

A ascenção do jovem proletariado chinês à luz da cidadania plena - que se fará, sem dúvida, ao ritmo ditado pela sua capacidade de luta organizada - é um dos mais decisivos parâmetros desconhecidos da construção do nosso futuro comum neste planeta. Se o proletariado chinês conseguir organizar-se e dar plena luta à super-exploração de que é alvo, impondo respeito social, galgando as escadas da maioridade política e impulsionando, deste modo, a indústria chinesa para mais elevados graus de complexidade e composição orgânica do capital, então podemos adivinhar que os dias de vida histórica do modo de produção capitalista estarão contados. O espaço de respiração que a retaguarda chinesa ainda permite ao reino mundial do capital terá sido colmatado. A contradição entre o carácter social das novas forças produtivas e a sua apropriação privada (paralisante, deletéria, de pura parasitagem) tornar-se-á uma fractura exposta. A iniciativa revolucionária do proletariado estará na ordem do dia, criando espaços de ruptura, por entre os quais um novo mundo nascerá.

 

 

Publicado no nº 123 (Janeiro/Fevereiro de 2010) da revista 'Política Operária'

 

 

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