A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
 Resultado de imagem para bolsonaro atira
 
 O Brasil no limiar do fascismo?
 

 

  

 

 

Não está ainda muito claro o que será o mandato presidencial de Jair Bolsonaro. O personagem é um vociferador vulgar, sem qualquer densidade. Não tem um projeto político claro nem convicções firmes em matéria económica e social. Tem só o culto da força e o amor aos fortes. Pode ir para muitas direções, inclusive ser um normalíssimo político da direita neoliberal. O Collor de Melo não era muito diferente disto. Os militares podem arrastá-lo para uma posição mais nacionalista, o Paulo Guedes para a privatização total e o entreguismo ao capital norte-americano. O baixo clero no Congresso vai regatear os seus votos, exigindo as sua prebendas. O problema é que Bolsonaro foi investido como caudilho, portanto as decisões vão ter de passar, de algum modo, pela sua pessoa, mesmo que ele não as entenda muito bem. Problemas de caráter, fraquezas e misérias da própria personagem, podem vir ter a sua importância histórica.

 

Há, naturalmente, alguns perigos imediatos que é preciso acautelar. Perigo de perseguição e criminalização dos movimentos sociais, perigo de ataque à liberdade de imprensa, perigo para a liberdade de ensinar, para a liberdade de associação e de manifestação, perigo para a segurança no emprego, para a amazónia, os índios e os quilombolas, etc... Inclusivamente o perigo de uma guerra com a Venezuela. O fascismo, historicamente, sempre foi terror e submissão interna, no imediato; quase sempre guerra no exterior, a prazo. Não estou ainda seguro de que Bolsonaro queira ou possa ser tão fascista como apregoa. Temos que estar atentos e tentar ocupar todos os espaços possíveis, na sociedade civil e no próprio estado, para tornar esse rumo inviável.

 

Os governos do PT (particularmente os de Lula) deixaram um legado positivo na construção de uma nação mais inclusiva. Com a ajuda de uma conjuntura externa favorável arrancaram dezenas de milhões de pessoas da miséria, duplicaram a dimensão da Universidade brasileira, diversificaram a política externa, desalinhando-a da submissão completa aos EUA, fazendo-a rumar ao BRIC e ao diálogo sul-sul.. Estou inteiramente de acordo em relativizar historicamente esta performance, inserindo-a na corrente que vinha de trás. As economias capitalistas dependentes têm esse movimento de vai-vem, inclusivo e exclusivo. É disputável que a política pêtista possa sequer ser considerada neodesenvolvimentista. Não houve rotura com os preceitos da ortodoxia neoliberal, nem substituição de importações com alguma expressão. Ficou-se muito longe e aquém do preconizado pela CEPAL. Uma coisa, porém, tenho por certa. O Fernando Henrique Cardoso (esse burguês vendido, altaneiro, cínico, melífluo e chocarreiro) nunca teria feito a mesma política redistributiva, mesmo em ciclo económico expansionista e com altos preços das commodities. E isso tem a ver com o abismo social existente no Brasil, provindo da sua estrutura colonial e que agora desembocou nesta explosão de ódio. Noam Chomsky observou, muito bem, que não há muitas nações modernas com o mesmo nível de ódio social que existe no Brasil.

 

Fui assistindo, de longe, atónito, à forma como esse ódio se foi infiltrando e dominando por completo um movimento contestatário, que começou até por ser muito interessante. O “não vai ter copa”, por exemplo, ou o movimento dos passes, eram iniciativas de cidadania juvenil, alardeando consciência social. Quem diria que estavam afinal chocando o ovo da serpente do fascismo? Como é que o povão favelado, sem tostão, está agora votando em massa Bolsonaro? Eles também têm ódio, medo e nojo do pobre? Como assim? Há aqui um mistério por resolver. Num primeiro momento, havia uma insatisfação que era própria de uma ascensão social ainda mal sustentada. Era uma crise de crescimento. Havia expetativas sociais novas que se manifestavam, exigindo melhores infraestruturas, mais inclusão, menos corrupção, menos desperdício ostentatório e de “prestígio”. Depois, este frágil movimento contestatário foi completamente assolado pela vaga do revanchismo social das classes média e média alta, saudosistas do velho apartheid. E a questão realmente importante é como é que isso foi possível. Uma contradição menor no seio do povo (para usar um conceito de Mao Zedong) foi abalroada e destroçada pela contradição maior entre os que têm e os que não têm. Com os que têm a impor novamente a sua lei irrestrita, que é a única forma como concebem qualquer lei, qualquer democracia.

 

A direita conduziu com êxito uma kulturkampf fulgurante. Como todos nós, na esquerda revolucionária, fico pasmado e horrorizado ao ver amplas massas populares enlevadas e maravilhadas com um personagem tão abjeto como Bolsonaro. Mas é bom convencermo-nos de que o povo não é naturalmente de esquerda. Nem a classe operária é naturalmente solidária, igualitarista e cooperante. Pode ser xenófoba e racista, como estamos fartos de ver aqui na Europa. As classes trabalhadoras têm de ser constantemente conquistadas e pacientemente formadas nas causas que, a nosso juízo, são as suas. Deixado a si próprio, o explorado pode facilmente ser levado a odiar o excluído e marginal. O miserável pode ser conduzido a desprezar intelectuais bem falantes (sobretudo quando nada verdadeiramente lhes deve), a confiar apenas em quem lhe sopra promessas de uma virilidade redimida. Sem pensar, sequer, que é contra ele próprio que se estão apontando as armas, que muito em breve podem deixar de ser simuladas.

 

Esta direita (não sei se nova se velhíssima) é mitómana e tem uma doentia obsessão conspirativa. Aí, pelo menos, há um claro paralelo com o vitalismo irracionalista dos nazi-fascistas. Para os bolsonaristas, toda a imprensa é “comunista” (o que, na sua boca, quer dizer mais ou menos o mesmo que moderno, laico, republicano, iluminista, etc.). Não é só a Folha de São Paulo, não. O Globo também é comunista (imagina!). Há toda uma gigantesca conspiração de ressentidos querendo embotar a livre expansão dos impulsos humanos mais vitais, como a agressão, a conquista, o domínio, etc.. Isto pode estar colocado a um nível ideológico de sarjeta nas redes sociais (WhatsApp, etc.), mas tem as suas raízes em Nietzsche, Sorel, Maurras e outros.

 

Enfim, este vai ser o nosso inimigo durante uns bons anos, talvez décadas. Vai ser preciso disputar-lhe, palmo a palmo, os corações e as mentes da gente do povo e da juventude trabalhadora. Agora mesmo está acontecendo isso em França, como o movimento dos “coletes amarelos”. Os impasses da globalização neoliberal e do seu “pensamento único” trouxeram-nos a este ponto. Macron é um produto nec plus ultra da razão neoliberal que toda a gente simples, honesta e laboriosa agora vomita de uma forma incontrolável. Mesmo que, para isso, acabe por vomitar em primeiro lugar o “politicamente correto”, ou seja, aquele módico otimismo humanista das luzes com que a burguesia tenta sempre embrulhar as suas receitas “progressistas”.

 

Toda esta reviravolta no Brasil foi possível, e até fácil, porque, historicamente, houve um aspeto do projeto pêtista que não merece perdão. Todo ele foi conduzido sem qualquer preocupação de consciencialização social das camadas trabalhadoras e marginalizadas em ascensão, a caminho da integração. Muito pelo contrário. Houve, sim, quase como uma preocupação explícita de apagar, dispersar qualquer consciência de classe. À medida que os próprios dirigentes do PT se embrenhavam na corrupção (muitos deles enriquecendo), entregavam as camadas populares, com bonomia paternalista, ao otimismo da livre empresa, ao espírito individualista e competitivo. Incitavam-nas no consumismo e no respeito das hierarquias sociais estabelecidas. Ideologicamente deixaram-nas completamente desamparadas. Quem colheu o fruto disso (e o dízimo) foram as empresas da fé, que o PT continuou até ao fim ainda a tentar cortejar. Bala, boi e bíblia é a trilogia do novo poder.

 

Simultaneamente, o PT deixou sempre completamente intocado o monopólio da velha oligarquia na comunicação social e no acesso aos mais altos postos estatais - incluindo a magistratura, a polícia e as forças armadas - para além de um sistema eleitoral absurdo, que deixa todo o país refém dos caciques locais. A representação popular foi mantida em estado completamente inarticulado, a nível nacional como estadual. Além do neoliberalismo económico, o PT aderiu também ao atomismo cidadão. Os pêtistas pensavam que, com Lula por perto, teriam sempre uma clientela eleitoral estabilizada e cativa. Uma massa popular amorfa e fidelizada acorreria sempre ao voto, renovando a governança pêtista e o acesso aos potes de ouro da negociata. E foi o que se viu. Agora é tempo que virar a página, renovar a esquerda e arredar o PT da sua hegemonia.

 

É muito custoso assistir à prisão de Lula, por ela ser extraordinariamente injusta. Mas “a história o absolverá”, no que puder. O seu resgate imediato esteve ao alcance do povo brasileiro, mas ele não o quis efetuar, neste momento. Não se pode hipotecar mais o futuro da emancipação popular só para desagravar um homem. Lula alcandorou-se ao poder e quis exercê-lo neste regime burguês profundamente corrupto, aceitando e praticando as suas regras. Agora paga o preço por isso, cobrado pelos próprios corruptos, que se perfilam hirtos em sua majestática seriedade, enquanto vão amesquinhando a nação e entregando ao desbarato o seu património ao capital estrangeiro, esse sim, ao que parece, sempre de uma verticalidade impoluta. É tempo de abrir um novo ciclo nesta tarefa de Sísifo da construção de uma verdadeira nação brasileira.

 

 

 

 

 

 

Voltar à página principal

 

© 1997-2010 angelonovo@sapo.pt