A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
 Gene meu, gene meu
 
 Biologia do Egoismo
 

 

 

 

 

Germano F. Sacarrão

A biologia do egoísmo

Pub. Europa-América, s/d (1982).

 

 

Um ensaio de biologia acessível ao leigo e, sobretudo, uma vigorosa denúncia, bem fundamentada e sempre contida em critérios de estrita cientificidade, dos delírios e abusos ideológicos de algumas recentes doutrinas biológicas - do inatismo de Lorenz às teses do atavismo predador-assassino de R. Ardrey e D. Morris; da sociobiologia de Wilson aos entusiastas da eugenia e da engenharia biológica, os Laborit, Darlington, Burnet, etc.. A extrema degradação... digamos moral, a que chega este pensamento fundamentalmente pessimista e arreigado ao mais férreo determinismo genético, pode ser ilustrada por esta passagem de Sacarrão (p. 111) que nos resume as mais recentes teses do último autor citado (Prémio Nobel da Medicina em 1960):

 

“Burnet é um determinista rigoroso (...), para quem os comportamentos sociais e as qualidades «superiores» e «inferiores» têm fundamentalmente uma causa genética estrita; que preconiza biotécnicas de intervenção e controle sobre os seres humanos (neuro-cirurgia, castração, etc.); (...) que o melhor será fiscalizar as pessoas, para o que deveriam elaborar-se fichas sobre as tendências inatas de cada uma, os seus desvios em relação à norma, à ordem, com classificação dos cidadãos em «superiores» e «inferiores», «leais» e «subversivos»; que há uma elite de cuja acção depende o Estado em oposição à grande massa dos cidadãos (cerca de 80%) sem qualificações ou méritos especiais; que a multidão dos medíocres, inferiores e tarados, por se multiplicar mais que a minoria dos eleitos, ameaça os indivíduos «superiores» (...), o resultado sendo a progressiva degradação genética das populações; que o problema do bem e do mal deve ser retomado, mas agora em termos de genes e de evolução (...); proclama, enfim, uma biologia que dominará toda a cultura e substituirá mesmo a filosofla e as religiões, a caminho de uma sociedade planificada, dirigida ou aconselhada por um imenso cortejo de biólogos transmutados em omnipotentes biocratas”.

 

Espantoso? Só para quem perdeu a memória.

 

A análise de Sacarrão centra-se sobretudo na doutrina sociobiológica de E. O. Wilson e seus seguidores, que apostam numa nova síntese científica que pela via do enfoque biológico abarcará todo o campo das ciências sociais e humanas. A sua tese fundamental é a de que todo o tipo de comportamento humano é biologicamente determinado pelo gene correspondente. Assim no caso dos comportamentos egoísta e altruísta, em que tudo se determinará (obedecendo à necessidade reprodutora dos genes) consoante o grau de parentesco entre os indivíduos em causa, ou seja, a percentagem de genes que têm em comum (não há egoísmo dos homens, mas sim dos genes) e os riscos relativos que cada um deles corre: nuns casos será o comportamento egoísta o seleccionado, noutros o comportamento altruísta, consoante a «aptidão darwiniana total» que demonstrem, ou seja, a sua capacidade para garantir a reprodução do «fundo de genes» comum nas melhores condições.

 

“Para um indivíduo, a vantagem selectiva de auxiliar outro indivíduo com o qual tem laços de parantesco depende de três factores: o custo para a sua própria «aptidão», a vantagem resultante para o parente e a quantidade de genes que têm em comum. (...) É curioso que J. B. S. Haldane antecipou esta ideia há muitos anos quando uma noite, numa cervejaria, ao discorrer sobre o altruísmo, depois de fazer uns cálculos rápidos no verso de um subscrito, disse: - Daria a minha vida por dois irmãos ou oito primos» (págs. 44 e 45).

 

Após um capítulo dedicado à refutação científica e à crítica da metodologia dos «sociobiologistas», Sacarrão detém-se a isolar alguns preconceitos, apriorismos ideológicos e aproveitamentos políticos das suas doutrinas, para encerrar o ensaio com algumas sucintas considerações em torno dos conceitos de cultura e natureza humana, nucleares em toda a construção científica e cuja distorsão está na base de não poucas perversões metodológicas de duvidosa inocência. Inclui vasto noticiário bibliográfico.

 

Seria outrossim interessante buscar as razões porque, neste limiar dos anos oitenta, um conjunto tão significativo da inteligentsia reaccionária (em todos os campos culturais e científicos) ataca com tal decisão e agressividade o bissecular paradigma igualitário e democrático, ao que julgo não ser de modo algum alheia a tendência totalitária das sociedades capitalistas centrais (ver artigo de J. Gomes Canotilho, Vértice, n.° 450/1, págs. 778-781) e a aproximação de novos tempos de crise e insegurança do Estado, a que o sangue-frio da classe dirigente poderá não ser capaz de responder com a devida discrição.

 

 

publicado na revista ‘Vértice’, n.º 454, Maio-Junho de 1983.

 

 

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