A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
 

Exílio de Caim

 
 Exiliocaim
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Amo aqueles a quem enche um grande desprezo, pois trazem consigo o respeito supremo, são as flechas do desejo apontadas para a outra margem.

Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo nas feridas, e que pode morrer de qualquer acidente fútil; porque é de bom grado que passará a ponte.

Amo aquele que tem a alma transbordante a ponto de perder a consciência de si mesmo, e nele carrega todas as coisas assim e a totalidade das coisas que causa a sua perda »

 

NIETZSCHE

«Assim Falava Zaratustra»

(tradução de Alfredo Margarido)

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANTE-MEMÓRIA TURVA

a António Ramos Rosa

 

 

 


 

1. depois da difusão prolixa dos espantos

inventei esta paleta de enumerador de sinais

torneei então abraços inúteis

atalhei razões de aventuras brancas e iniciais

supus-me um nome de percursos dilatados e suspensos

exposto o rosto à erosão dos pássaros

 

o desconchavo da memória

a apurar desvelos de sobrevivente não sei de que

velhos lençóis lavados e puídos até à náusea pois

começar é um compromisso (a insinuação dos limites)

a atenção decorrendo agora como um hábito

de lacerar e cindir o incurso da morte

uma duas três e mais vezes

na íntima plenitude do ser

não há fórmula de síntese soluto

colagem final dos acenos todos

 

mas o tempo (os círculos concêntricos

de raio variável)

mas percorrer a vertiginosa espera

até onde remontam as águas que o desejo delas já

suspeita ou acomete.

 

 

2. a ante-memória turva

qual incestuoso amanhecer

no ar serena se (re)trai

acerca do silêncio quase nenhum algor

apenas a demanda obscurecida

dos olhos oblíquos indiferenciados

cálida ou perversa ciência sustém

a imensa espera pois

 

no limiar do tempo (na própria abordagem da finitude)

é que a torrente conflui

e o ágil porvir emudece

quem lhe retém a forma tacteada

intacta necessária aquela

apenas ciosa de um nome completo.

 

oh rescenda então a claridade da entrega

qual árvore insubmissa trespassando a rosácea

da transmutação derradeira

a nave do silêncio

desfiando sua poalha de oiro âmbar e bolor

e também essa incrível verosimilhança

em que se diz a refracção do indizível

avance e acometa a penumbra do dizer

liquefacção ou intensidade

é lá que a memória se faz corpo

num corpo outro que se estranha sua própria raiz

muito aquém da memória.

 

 

3. substância viva não o digo

- ce qu’on dit n’est plus –

coisa que tange readquire a luz a incinerada exactidão

não o digo

e repito a fala ou levitação antiga

que nem um só gesto comete que nem é gesto inteiro

assim miraculosamente extinto e de si redivivo

arco tenso de várias mãos realizado ele é

substância viva ou o que resta de seu batimento primeiro

quando a imersa rebelião das superfícies

intercepta qualquer continente naufragado onde

a rebentação ecoa total e reconhecida

indizível.

 

 

rodear-me pois de perversas alusões consumptivas

tactear a morte infinita no bojo da noite

que serenas e hábeis e secretas sonoridades

onde o amor reflui se compenetra sua íntima instância

é então no ar (apenas aquela sucessão de espessuras)

que se incendeia o poema

dói no próprio âmago do silêncio

a claridade assoberbada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INCISÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Se se prefere, não houve nunca um interpretandum que não tivesse sido interpretans, e é uma relação mais de violência que de elucidação a que se estabelece na interpretação. (...) ela necessita apoderar-se, e violentamente, de uma interpretação que está já ali, que deve trucidar, revolver e romper a golpes de martelo.»

MICHEL FOUCAULT

«Nietzsche, Freud e Marx»

 

 

 

 

 

 

 

 

Alma Mater

 

 

«Caesareas leges, et claros juris honores, dum decet

ipsa tibi quod decet aula dabit.»

 

Dístico de uma Aula da Universidade de Coimbra

anterior à refoma pombalina

 

 

 

 

idónea grande

esperada

as paredes incindíveis sobre

o legado da terra

a feição agravada parada tomada a um lado

a bater sombra nas lajes (tangência de sol?

fractura?)

garbosa de coroas e mitras

bafejando incenso e poeira num ranger vil de portadas

e as vozes/ilhas ladainhas que cobrem o espaço

reboam os aspectos finais redundantes

 

amor de pedra

com esquinas rectas e frias aos meus dedos

muralha limite-lugar

exacta e aceradamente disposto

para o crime.

 

 

 

 

 

 

 

 

O reino da estupidez

— Ciência Administrativa e Policial

 

 

 

 

 

aquele que critica

deve ser chamado à razão

questão de método ou bem talvez de hermenêutica

cite a melhor bibliografia autorizada

pp. 652-679 e passim

sorria muito use gestos largos dicção irrepreensível.

aquele que duvida

pode ser esclarecido

com um mínimo dispêndio de chá e dan cake

ou com um bom pontapé nos tomates

ingratus unus omnibus nocet.

mas aquele lá que interroga com

olhar fixo

e um desenho equívoco nos lábios

sem mercê sem quartel -

esse deve perecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Distante

 

 

«You’d better run and join your brother John»

GENESIS

‘The Lamb Lies Down on Broadway’

 

 

as horas as horas

como sombras

de um silêncio antigo para lá da memória

a minha carne dispersa

retém um nome acometido nas ruas -

thorem

meu irmão john espera-me

nessa noite de todas as viagens

ancoradas por um sopro no tempo

espera-me lá muito longe e nessa estranhada lonjura

é o seu ombro que espera o meu

os seus olhos que procuram nos meus

reler a mesma indeclinável distância

parto agora

é que as luzes da cidade se extinguem

e os meus passos ecoam por dentro das casas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Domicílio vigiado

 

 

 

 

amar é difícil (risco um fósforo

o fogo estala monstruosamente)

requer muito esforço continuado de abstracção

como andar de bicicleta

já tentei sangrar os dedos com uma faca

as ilusões desfeitas

correm as lágrimas ao rio na infância do mundo

bobby sands e o seu magnífico esqueleto didáctico

a malta no soweto a dançar e a rir

o sentido do tempo.

que é ser-se uma casa devoluta e indisponível?

a insónia macerada de pés nus

em tábuas velhas e infectas

abjecta circunvagação de jornais livros e aguardente

amar é difícil - quod erat demonstrandum

lá fora devagar a chuva cai

(o cigarro arde as têmporas explodem)

e sacode-me a face como um látego.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apontamentos de antropologia

 

 

 

 

«Eles já deviam saber que nós somos duros»

Adepto do Liverpool F. C.

após o massacre de Heysel Park

 

 

 

a morte circula na grande-área

viaja solta numa obsessão geometrizada

algures na bancada um petardo luminoso

a multidão imola-se em fumo

e é o jogador da camisola amarela que domina

ele parou agora

na ponta direita e centra largo sem oposição

a bola explode na trave

com um gemido brutal o estádio agoniza

deus é uma presença/ausência inteligível quase concreta

um diálogo no sangue dos heróis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Broken bottles under children’s feet

 

 

 

 

 

 

 

a noite ergue-se num continente envelhecido

vejo beirute na tv

amanhã estarei talvez em durban

la paz belfast seul

há uma cidade real no meu pensamento

com toda a ficção do mundo

com redes de arame protectoras

ratazanas em terraços suspensos

a suja metralha nas ruas

o próximo bloco que se alonga por

um passo a mais no asfalto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O numero da besta

 

 

 

 

1. a grande rosa nuclear tem carinho pelos seus filhotes

submarinos trespassam a sétima avenida engalanada

no silêncio da pradaria os silos

aí se oficia ao deus défice orçamental

oh águia rediviva da civilização do colesterol

in god we trust in god we trust in god we trust

homens grisalhos assentam os bonés com rigor

o cavalo de picasso pasta sem fome já

 

2. a doutrina dissuasora recebe flores no seu camarim

unanimidade da crítica

solid gold

o investimento seguro e cumulativo

as ilusões pequeno-burguesas são espirros na multidão

o cavalo de picasso é gordo e sacode as moscas

 

3. rasga-se o sol em mil abismos de enxofre

as verdes cabeleiras da raiva se entumescem

em alucinação e estupor colapsam as sínteses

e o vento vem varrer a praça dos vilíssimos remorsos.

 


 

 

 

 

O ídolo da juventude

 

 

 

 

estou morto sobre um piano abandonado

agoniado de jazz

descrente de sonhos que não me sonhei sonhar

reincidente nesta lucidez de estar farto de moscas

vou entrando nas répteis represas do presente

rasgando anjos de papel com as botas e os punhos

(o sangue cai sempre sem remorso

num silêncio incorruptível)

estou vivo num mar de plástico e excedentes

e o refrão soa distante como não haver mais distância

expande-se e reflui e explode nas minhas têmporas

no future no future no future

ergo a face o sorriso acoplado

leviathan cuspindo no chão

então digo

é meu o século do terror sem limites.

 

 


 

 

 

 

FMI fotografado por B. B.

 

 

 

 

o cobre e o tungsténio oscilam

em lima e também em lusaka

a fome e a raiva são espancadas nas ruas

agitam-se os agentes agiotas da banca mundial

agir agir agir já

murrow park washington d. c. é onde

os deuses burocratas de axilas suadas e gargalhadas prolixas

treslêm e classificam cataratas de papel desdobrado

separam a vida da morte

têm a tensão arterial rigorosamente vigiada

e relatórios médicos detalhados ao fim do mês.

 

 

 


 

 

 

 

Introdução à teoria das catástrofes

 

 

 

o quark provavelmente é cindível

e nunca haveremos de perceber grande coisa

da economia da matéria informação entropia calor

não procures a beleza resiste

a vozes que não te chamam nem escutam

cresce e organiza-te.

 

em verdade vivo numa era de trevas

dizia o b. b. (1898-1956) —

uma palavra que não seja dúplice é um absurdo

as ciências propõem jogos de azar

os políticos sorriem

e uma nuvem pousou no coração da Europa

carregada de pensamentos secretos que

se partilham já sem horror.

springsteen em minneapolis e a juventus

no communale há uma vibração eléctrica no ar

sinto-a passar ela

sacode o coração das multidões

e este bate em uníssono brutalmente

sem sentido.

 

 

 


 

 

 

 

Sangue árabe

 

 

 

 

mil bênçãos mil manhãs radiosas

para ti meu irmão oxalá

as mãos postas

o mijo secando nas paredes da medina

a grande rosácea do ser vela na deriva dos povos

servidão orgulhosa em seu fétido destino

em tento à desmedida grandeza de um deus sem rosto

o sangue ao canto da boca

agressão sufocada em lágrimas para lá da esperança

a amarga face contra o chão uma e outra vez

— não compreendo.

 

oh abre para mim as tabernas dia e noite

que eu cresci a odiar a escola e a mesquita

meus pais e vizinhos amaldiçoam-me os passos

vou-me embora para al-andalus

de olhos secos os pés nus bem firmes no caminho.

 

 


 

 

 

 

Abril português

 

 

 

 

sombras e navios

não existem

uma utopia adormece no meu corpo

os amigos partiram

derramando no cais as mesmas velhas promessas

então adeus pá (não houve acenos)

uma cadeira quebrou-se ao peso

dos risos e abraços perdidos

para sempre

o amor é esta casa fechada

e sabes bem do que te falo pá.

em abril

dizer-te palavras que ficaram

como marcas de copos sobre a mesa

tocar-te levemente

é a pequena possível lucidez.

 

 

 

 


 

 

 

 

Por Antígona

 

«Não se consegue perceber se se treme de febre ou de frio»

Carta de Ulrike Meinhof na prisão

 

 

 

 

abaixo o capitalismo

disse ela

derramando algum açúcar no tampo da mesa

os amigos muito juntos tocando-se

sorriso contra sorriso

partiríamos então numa manhã inexcedível

descalços e eufóricos as mãos incendiadas na desordem

em busca de um norte para pousarmos as mochilas

ficaríamos afinal a face contra o vidro

gotas de chuva ziguezagueando na memória —

die eiserne maske der freiheit.

os criados equilibram bandejas de martinis

passam as consciências municipais nos seus fatos riscados

a alemanha no Outono

hans martin schleyer deve morrer

ainda a razão do estado.

 

 

 

 


 

 

 

 

Nota para um suicídio preterido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

o monstruoso equívoco

já pode ser cremado

numa imensa roda de esconjuros e anátemas

as cinzas ficarão

entregues à brisa célere do esquecimento

ou do compungido remorso.

voltará

passados noventa dias

será rei e profeta aclamado na ágora dos mentecaptos.

 

 


 

 

 

 

Na morte de Valentin González (El Campesino)

 

 

 

 

 

 

 

 

suores frios de noite

os filhos da puta berram as obscenidades do seu chefe maneta

medo aos touros

quando eles oscilam a cabeça e eu não sei

o comprimento exacto da investida

as minhas mãos tremeram naquela tarde

na planície aberta e seca como um remorso.

estive longe depois vivi muito o sangue

tornou a correr veloz nas minhas veias

— não me apunhalaram.

 

 

 


 

 

 

 

Para o Smolny

 

 

«Atirava a cabeça para trás, depois inclinava-a sobre o ombro enquanto metia os dedos nas cavas do colete, debaixo das axilas. Nesta posição havia nele qualquer coisa de espantosamente divertido e cativante. Parecia um galo vitorioso (...). Gostava de coisas divertidas e ria-se com o corpo todo, verdadeiramente inundado de alegria.»

MÁXIMO GORKI

‘Lenine’

 

 

 

 

o homem é nada — apenas a carcaça do tempo

esse precário equilíbrio e tensão de músculos

livro e espada

uma silhueta recortada contra o vento

na perspectiva

a cavalaria inimiga cruza com ele

o cabelo tingido a gola alçada

um olhar lúgubre preso à esquina do passeio

ele vai entrando entrando nessa noite incendiada

e passa para o outro lado do tempo

e é o próprio tempo reescrevendo-se pelo seu passo.

 

 

 

 

 


 

 

 

 

Damné par l’arc-en-ciel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

algo portanto nos prevenia contra a beleza

e o levou a escarrar a face do anjo

ele caminhando durante horas dias sem sombra

naquele seu passo de potro bem erecto

feroz como lâmina desperta pelo ciúme

riscando de azul a linha dos campos

já despertos pela poalha de oiro do sol

o horizonte abrindo-se então magnificamente sobre visões irisadas

de monções âmbares raros febres distantes.

 

 

 

 


 

 

 

 

Novas investigações sobre Caim

 

 

 

 

 

 

alcool e violência

alguns episódios psicotrópicos

podem fazer de um homem santo tal

bogart em knock on any door ( o crime não compensa)

o risco o riso o rio

não temas os sinais as quantidades mensuráveis

escarnece de deus mata teu irmão

e teu amor nele

o sangue correu sob muitas pontes já a paz

acedeu às ruas escorada no medo

em chernobyl vi um homem evaporar-se num segundo

morre-se de fome ou imunodeficiente

e a prudência das cidades diz que se mate mata-te pois

essa culposa ignorância do crime revive entâo

coincidências que perduram

do not go gentle into that good night

ferido peleja de bruços ainda

morde e pragueja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Elucidatório final sobre o sexo dos anjos

 

 

Para a Sra. Elisabeth Badinter

 

 

têm sim senhor eu vi

serve-lhes de leme ao que me apercebi

se estão em repouso o instrumento recolhe

e dá lugar a um pequeno orifício róseo e carnudo

por certo já os encontrou

são como aqueles sacos de nylon de recolher em bolsa

(tenho um

mas está estragado).

 

quando se juntam aos pares

em sua angélica conjugalidade

penetram-se cada um por sua vez. as harpas trinam enlouquecidas

alheadas da prometida cólera de Jeová

video meliora proboque deteriora sequor

por toda a extensão das nuvens

corre um rumor de galhofa dos pequenos querubins.

 

 

 

 

 


 

 

 

 

Sida

 

 

Sob patente alemã em nome de um Hans Magnus Enzensberger

 

 

 

 

não toques não te envolvas

jovem amigo

vêm tempos de ficar quieto ao abrigo

da virtuosíssima caspa dos censores

não olhes não esperes não procures não

não mexas em nada

faz cálculo trigonométrico a horas certas

podes rever os teus ídolos no ecrã gigante

então recorta o cupão do semanário

e a sorte pode ser tua se fores ousado.

 

dies certus an incertum quando

assim produz seus efeitos

o assassínio esperado de rainer werner fassbinder

detido lá rente ao chão

um corpo deixa de fazer assim tanto sentido.

 

 

 

 


 

 

 

 

As chuvas ácidas

 

 

 

 

 

 

cola-te ao teu acto tudo permanece

e pensa o que tudo é diverso e possível

as mãos colhem os frutos por nascer

não no tempo - o espaço em retroacção -

mas em acto pensa

como é improvável esse teu ser aqui e agora

sempre a hipótese da negação lá onde não é o teu acto

cola-te ao teu acto e não actues pensa

o que tudo não é e já foste.

 

de noite pela estrada larga

o viajante sem sombra

na américa todas as causas são equivalentes

newton trincando a maçã

bem aventurados os crentes mas

de noite pela estrada larga

o céu carregado de nuvens que eu suspeito.

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A DISJUNÇÃO DO INSTANTE

 

 

 

 

 

 

 

«O valor de todas as coisas é a sombra que elas projectam, a hora efémera que elas tiram à massa confusa do Tempo – a hora que se destaca, e tem relevo, e persiste, e reage contra a maré do Tempo.»

 

 

TEIXEIRA DE PASCOAES

‘O Bailado’

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

Perigo de vida

 

«There’s a party in my mind,

and I hope it never stops»

 

Talking Heads, “Fear of Music”

 

 

as mãos no presente não se iludem

tremem os dedos aturdidos

os cigarros são vozes demasiado escutadas

confundem-se seus solilóquios sempre lentos e acerados

degolar a irmã não é excitante

o copo rebola de riso pelo chão

velhos pederastas fizeram-me propostas nada obscenas

tornei a ser sovado na rua

com naturalidade

the grasshopper lies heavy the grasshopper lies heavy

subir escadas talvez onde o irreconhecível

e pendurar-me nos espaço com os headphones postos

vozes roucas estragos visíveis

saltar de combóios em andamento é fácil

quando se é jovem os avisos perdem-se

no diálogo dos gestos e asserções lugares incomuns

resgatar afinal

a imediata solidão própria nem muito fiel

a precaridade do ser

não há árvores imarcescíveis ruy belo.

 

 

 

 

 

 

 

Queixa das almas jovens incensadas

 

 

 

 

 

 

 

o telefone não tocou - horas recidivas

lembram recados velhos e inúteis sobre a mesa

sequestrados do presente

sem tempo nem compreensão do tempo apenas

o sempre retomado labirinto mental

a putrefacção de uma espera que

do amor só é profíqua existe apenas

sua crueza incisa.

 

o viver mais ou menos

o borrão no papel traço inteiramente inútil

o poema inacabado e absurdo.

 

 

 

 


 

 

 

 

A terrível manhã

 

 

«Que terrível manhã, que trágico descobrimento de

 morte e de ódio se está preparando nessa infância.»

Miguel de Unamuno

«Visiones y Comentarios»

 

 

 

 

o crepúsculo desce

nesses hábitos de viagens infindas

a noite afaga os mitos

de que a revolta é sentido e abrigo

pão negro vinho fugaz para a memória dos vivos

ávida e inconclusiva

vem então o vento trazer

esse nu amanhecer dos corpos na praia deserta

expostos enfim à doce volúpia dos cães

e do esquecimento.

 

 

 

 


 

 

 

 

Para Elisa

 

 

 

 

 

 

desenhar um corpo por delito

e preenchê-lo lábio a lábio cruelmente

despidas as margens de côres e aspectos banais

a cisão mais grave suspensa

no silêncio

onde cabem talvez os teus passos certas horas

a demora sofrida das palavras

na pele seca e já riscada

pela súplica do sal

o gume da boca sacrificada

o grito sob a fractura dos blocos.

 

 

 

 


 

 

 

 

 

Hashish

 

 

 

 

a cabeça bate lateralmente (um som cavo)

as pernas flectem no esboço de um passo

vagas alternas vibram no ar

a luz multicolor e caleidoscópica

modela algo que é ainda um espaço posto que

rarefeito (ou sintético?)

ouço música tocar (possivelmente john cale)

longe lá ainda

a percepção inquieta de outros ruídos sinceros e afáveis.

 

 

 


 

 

 

 

Der durstige mann

 

 

 

 

 

 

 

a horas impróprias debruçado ainda sobre

as cinzas de um tambor

o luar de setembro

toldado inflecte sobre ele uma crosta

em sopa fria

tarde demais talvez

o desejo envelhece sem perder o azul mas

essa só noção de azul inamovível ainda

no ar se vai recompondo

inteira e madura como uma tese

grandes são os desertos

o homem parado na beira do caminho

aspirando o pó do caminho

o seu peso específico.

 

 

 


 

 

 

 

 

Não

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

debruçado sobre

o papel pedaço descorado

a letra oblíqua

a descrença

a grande essencial náusea das palavras

ponto.

 

 

 

 


 

 

 

Europa

 

 

 

sentes o vento no sopé da estátua

desdizendo o sal

de que foi feito o excesso e a renúncia

a gasta memória de preces demasiado escutadas

cavalo enlouquecido

pelo orgulho de empédocles -

ogni viltá convien che qui sia morta.

Ouço a respiração densa dos séculos

os homens calcaram o seu próximo calcularam

essa incerta rota do ouro e do cânhamo -

fusão das calotes na imensidão

a cotovia bailou com o urso

- doía a semente das gerações lançada

na terra ferida

pelo teu riso de peste e excomunhão

águia bêbeda de amor

lúbrica e cúpida meretríssima senhora

da pólvora e das insígnias

da razão.

naufragaste com sepúlveda

numa impremeditada nudez própria agora

selling england by the pound

acaso te reconheças por imagens cruas

e a serpente da astúcia troçou do teu meio-dia

num lacht die welt der grause vorhang riss

die hochzeit kommt fur licht und finsterniss.

 

 

 

 

 

 

Saudade

 

 

 

árvores rubras te chamam

já as carpas jazem confusas e submissas

e tu não partiste ainda

aguardas a vinda do irmão na rota oblíqua das aves

o pão esquecido na mesa pobres e excomungados

ficamos mais juntos no silêncio

denso quase táctil.

 

Os loucos morrem fiéis à terra comum

roda e tempo as duas faces de jano

movimento perpétuo

o galo cantou agora e

na praça

acende-se um calmo desejo

amanhecer e

viagem de siegfried no reno

oh repete repete eternamente

essas velhas canções do meio-dia.

 

 

 

 


 

 

 

 

Hora

 

 

 

 

1.

espreitei a morte nesta cidade

a cortina balouça

os chacais esperam

a crua ocasião do sangue e do saque.

 

2.

amigos e inimigos

todos se afastam com terror

há um presságio gravado na sua testa

não consigo decifrá-lo

a cotovia no varandim

o vento corre célere cada vez mais cada vez mais

diz morre

diz morre

morre.

 

 

 

 


 

 

 

 

 

Hölderlin em Paris

 

 

 

1.

essa criança robusta de olhar claro azul líquido

amante simples de estranhas coisas

chegou lívido leve camisa rasgada o cabelo erguido em chamas

as botas sujas do estrangeiro -

docemente

o seu sangue gotejava nas lajes

e ele entrava devagar na luz da infância e da ideia.

 

uma dúvida não partilhada

pode ocasionar um dano trágico

fiéis à terra restemos sobretudo fiéis à terra

mão recta e enxuta

vai tecendo o advento dessa cidade pIena

a canção dos heróis o éter sagrado

que há-de ser dos justos e dos loucos

esta demanda apenas

diotima suspensa no tempo

o raio feroz água brilhando entre os dedos

gross und unbezwinglich sei

des menschen geist in seinen forderungen

johann friedrich desmaiou perto do sena

- apolo feriu-me -

qualquer velho cão pardo cheirou-o e afastou-se na margem.

 

 

2.

em verdade ele era pobre e sem malícia

em verdade ele conheceu apenas essa mais íntima metáfora do conhecimento

em verdade ele foi a infância dolorosa do uno

einstein sorri que não há éter algum

1905 questão de espelhos e imagens tempos divergentes

scardanelli e os punks

em berlim cai a última neve dos impérios alheios

e a verdade é uma bela noiva com toda a virtude

de jamais se ter entregue senão por dinheiro.

 

 

3.

sulcos viagens

a pele seca de promessas e excessos

de que um amor velho expele já os justos sinais -

essa respiração irmanada de todo o ser

na inteira comunhão do que eternamente ao ser se volve -

oh vem ver o mar deste pontão firme na terra

o anel no bico da gaivota

vem ver devir continentes indivisos

a longa espera quais solenes frutos a haver

como nada se sobrepõe a si mesmo

a final.

 

 


 

 

 

 

Décadas de paz

 

 

À memória de Jorge de Sena,

com um certo temor.

 

 

eles vêm matar-te companheiro

e a questão é: para, quê o grande degelo?

a calote tomará outra forma não

necessariamente outra massa

os amigos farão odes às amigas os gatos

não temerão mais a lua com a sua reverberação insana

e veneza será salva claro tudo isso é certo mas

irónico silente o dedo do tempo

esmagar-te-á

e não poderás recomeçar o que nada acaba tu sim

cada homem tem ensejo para um só grito na treva natal

antes de recolher à lama

mortais e imortais - todos mentiram.

 

 

 


 

 

 

 

Metafísica insustentável

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

era outubro e toda esta

água a correr entre as pedras

o musgo era doce um tremor

inebriava os dedos álgidos ao toque.

vi o sol reverberar

nas altas copas uma espera irónica

bailava o vento silente e raso entre as ervas.

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O GRANDE REBELDE

(Fragmentos)

 

 

 

 

 

 

 

 

«Cresce e fala na tua boca e crescem nas tuas mãos, cadeias.

Arrasta para ti o Universo, arrasta! Ou serás tu arrastado.»

HUGO VON HOFMANNSTHAL

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

ele vinha do sul ou era assim que o víamos

por essa estrada suspensa do azul

a espargir o terror e o assombro dos murmúrios

quando a sua sombra se erguia do chão

e tocava a haste mais pura do silêncio.

no seu olhar líquido

uma pertinaz busca de cores e continentes

a partilha dos sorrisos

toda a intensidade dos gestos a nitidez dos limites

eram com ele à sua chegada

o rosto breve

instante suspenso do acaso.

 

jaz sobre a sua espada de sílica

distenso a cabeça intacta pendida para o poente

o peito aberto sobre a terra num abraço pastoso e lento

vinde harpias beber do seu sangue

que os seus inimigos não tardam

a retalhar o seu corpo para o pasto das aves

está morto.

 

há um qualquer rumor novo nas cidades

nas árvores

correm notícias sussurradas

e uma vez mais a mesa está posta para ele.

(...................................................

....................................................

............................................) osa infecta

já madura de verdades digladiantes

su des halben zu entwohnen und

im ganzen vollen schönen resolut zu leben —

o velho de weimar não tinha astúcia

subiu aos céus numa revoada de querubins gorduchinhos

transformá-lo transformá-lo disse

o caçador sem repouso

trilhando o seu rasto de tabaco sobre a página

insone pelejo com as unhas

vai-se erguendo a manhã já afronta os olhos

que buscais o dardo da manhã

minha mais pura dádiva dardo feroz

rasga a cortina do medo

assim iremos eu e o JLRG

no elmo empenachado a bola de terra dos heróis

how about it ez?

o sangue desperto

lágrimas caíram aqui febre

despojos muitos

cabeça a descoberto o chacal atento

senti-lhe o hálito

os ombros contra uma porta que não abriu

eis porque sou então «trágico» refractário

à atenção dos críticos aduladores de sintagmas

porque o tempo vem em que nenhuma palavra será poupada

à demência dos agrimensores

porque o tempo vem em que a tua voz soará falsa aos teus ouvidos

como um eco maligno e irrisor

o tempo vem para a barbárie neo-humanista

o jusnaturalismo a eficácia performativa

o irredento fedor dos cadáveres expostos por delírio de razão

tempo do assassino homme de lettres

acolitado por acessores a aderecistas vários te dirão

o que te forçarás a acreditar por temor de ti próprio

calar-te-ás então ou expelirás a propósito

tuas novíssimas utopias sintéticas salvação pré-programada.

 

(…………………………………..

……………………………………..)

a chuva caiu ontem todo o dia

faz frio

acorrem as danças esse maldito som de Maio

coros e cores de quanto se foi incauto

dessa vertigem revel riso à taça transbordante

eu iria buscá-la a uma estação creio que em Coimbra

recordo-me de certo cheiro a lavanda (ou maçãs verdes?)

os dedos na sua saia ela sorria

e cedia

os olhos muito abertos feridos.

estive em alguns sítios pouco recomendáveis

fui estudante moço paquete marinheiro jacques viu-me

dans le port d’amsterdam dans le port d’amsterdam

a beber vinho arrotar alto e mijar às portas

perseguido pelos cães

conheci então querelle em ajaccio

ofereceu-me tabaco sírio e anfetaminas

pousou-me a mão no joelho

toquei sax tenor num clube de jazz

ganhei boas maquias à lerpa

atento astuto o cigarro na boca descaído

perdi uma eleição para deputado municipal

perdi também a honra ocasionalmente

escarnecido escarrado e calado

as pernas trémulas o gelo na nuca.

tive grandes esperanças e amei «por actos certos»

certos porra

como te odeio a ti fédor mikhailovitch

lobo triste o pelo hirsuto e coçado

aí na velha foto remoendo praga e peste a monstruosa providência

estarás tu certo?

 

(…………………………………..

……….) de polir as unhas do descontentamento

mas era então o mês do grande degelo

ele desceu ao horto com um grande arco na mão direita

falou ao cão e ao açor

e pousou o arco numa rocha junto de um regato

bebeu então (……………………………..

………………………………………………

…………………………………………………..)

quando regressou interrogaram-no sobre

de que era feito o arco da aliança de todos os seres

mas ele não ouviu a pergunta absorto

nos seus pensamentos hialinos.

baixou-se então lentamente e tocou a erva com as mãos

olhou o sol durante o que nos pareceu muito tempo

embora pudesse ser apenas um segundo seu

finalmente sorveu o ar como que desperto

tomou as suas armas e partiu pela floresta dos doze caminhos

já escurecia

nunca mais alguém o viu ou teve notícia dele.

 

(……………………………………

………………………………………

…………………………) dade que

dessas frondosas árvores se fizeram fósforos

agora húmidos do suor de muitas esperas

escrevi pois a seguinte

Carta Para Atirar ao Mar Dentro de uma Garrafa

Quando Encontrar Uma

deixei de ler por completo

rio agora com muito menos frequência

viajo do quarto para a sala

da sala para o sótão

depois volto ao quarto e olho o tecto.

o poder acha que sou um rapaz com interesse

deu decerto instruções ao comandante distrital da psp —

que não lhe toquem!

há muitos anos que ninguém me toca

e a publicidade na tv serve-se de mim para vender um chocolate

e também um desodorizante creio

sinto apenas um amolecimento

de estearina por entre meus ralos cabelos

— as coisas do espírito portanto —

definhar a vontade

nesse caldo tépido das coisas já vagas e indistintas

vou talvez morrer neste ano

ou não

mas este será o meu último livro.

 

 


 

 

 

 

NOTA DE EDIÇÃO

 

Os poemas que se compilam neste volume foram escritos entre 1983 e 1991, sendo visíveis em muitos deles as marcas e o pathos específico de uma era passada, aliás facilmente identificáveis. Julgamos mesmo que a poesia, por mais que busque acercar-se do absoluto e do inominado, será sempre o produto desse atrito entre a nossa carne mortal e o tempo. Uma primeira versão, posteriormente alargada e refundida, das três primeiras secções deste livro, foi galardoada em 1986 com o Prémio Manuel Laranjeira de poesia instituído pela Câmara Municipal de Espinho, entidade que entretanto se desinteressou pela sua publicação. Alguns poemas foram já publicados na revista Vértice (série coimbrã), suplemento Ler e Escrever do «Diário de Lisboa», suplemento dominical e revista Encontro de «O Comércio do Porto», e ainda na bela e horrorosa Última Geração.

O autor deseja expressar os seus agradecimentos a Wolfgang Goethe, U2, Ruhollah Komeiny, Carlos de Oliveira, Dylan Thomas, Phillip K. Dick, Jacques Brel, Jorge de Sena, Bertold Brecht, Richard Wagner, Vergílio Ferreira, Genesis, Fernando Pessoa, Dante Aligheri, Karl Marx, Hans Magnus Enzensberger, Johann Christoph Hölderlin, Friedrich Nietzsche, Sex Pistols e Arthur Rimbaud. Os títulos, versos ou fragmentos de verso em itálico são citações suas. A muitos mais deve ele algo, naturalmente, mas terá de dirigir-lhes um aceno muito genérico.

O autor persiste em respirar, brutal e inconsideradamente, mas vai agora concentrar-se sobretudo em envelhecer sem mais sobressaltos.

Na capa de Exílio de Caim reproduz-se parcialmente uma fotografia de Leonard Freed, extraída de New York Police (Photo - Notes, 1990). Deste volume tiraram-se, durante o mês de Setembro de 1992, 300 exemplares, na Tipografia Freitas Brito, Lda., Rua do Ferragial, 12 a 20, em Lisboa.

 

Lisboa, Outubro de 1992

 

 

 

 

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