A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
 Duas palavras necessárias
 
 
 

 

 

 

 

 

Um dos mais curiosos paradoxos da nossa era é que, justamente no momento em que se torna patente a falência do projecto da razão universal proclama-se a globalização da economia. Tendo a acumulação deixado de ser um privilégio do mundo ocidental, as luzes jorram agora de variadas direções e com tonalidades distintas. Tendo sido um instrumento de conquista e subjugação do outro, agora revolteiam sobre si mesmas, encandeando mais que esclarecendo. A transparência que prometiam revelou-se afinal um sistema caótico de vigilantismo ubíquo, vil engano, vesgo ódio antissocial. Quem continua a fazer do homem a medida de todas as coisas deixou em definitivo de adorar confiadamente no altar do progresso.

 

É que o ritmo e o rumo dos nossos dias, em todos os azimutes, continuam a ser determinados por esse ídolo voraz e omnipotente que é o capital. Acumulai ou perecei, eis aí Moisés e os profetas. Em ciclos cada vez mais curtos, feéricos, sincopados e implacáveis. Em detrimento dos meios de integração e asseguramento da sobrevivência física de uma fração sempre crescente da humanidade. Em detrimento da nossa integridade, honra, amor, família, amizade ou consciência. Em detrimento do nosso próprio meio ambiente vital ou da capacidade de adaptação noética da espécie humana. O que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira. Sempre e sempre em circuito, de forma cada vez mais veloz e mais cega.

 

Desde que me conheço tenho vivido em revolta contra o estado de coisas existente no mundo e procurado mentalmente, de forma incessante, vias para a sua transformação radical. Como já não sou jovem, toda esta atividade foi deixando alguma sedimentação consolidada. Nunca fui dirigente político nem tenho mínimas condições para o ser. Entendo, no entanto, ainda assim, que é minha responsabilidade deixar registo dos meus planos de escape à consideração dos meus co-prisioneiros neste sistema concentracional da propriedade privada e da mercadoria. Algum dia os haverá mais afoitos e capazes do que eu para empreender a fuga coletiva que se impõe. Para a consecução desse objetivo nenhum contributo, por ínfimo que seja, deve ser deixado por exprimir.

 

A perspetiva que aqui se expõe é, pois, fundamentalmente, a de um espetador comprometido e apaixonado com o grande espetáculo da humanidade. Não a de um ator que tivesse interagido efetivamente com a sua circunstância e aprendido mediante a avaliação de tentativas e erros próprios. Não estive na linha da frente. De todo o modo, o movimento anticapitalista global está ainda numa fase de formação e de definições elementares. O que aprendi, devo-o unicamente ao estudo e à reflexão, em grande medida solitária, sobre a experiência passada (aí incluída a mais recente) dos movimentos de resistência e emancipação das grandes massas laboriosas e conviventes. A história das suas lutas contra constantes agressões crematísticas que lhes são dirigidas já vem muito de trás. Muito para lá de Marx e do movimento operário, esses nossos contemporâneos. Ganhar-se-é, porventura, alguma coisa em tomar consciência plena disso. A sucessão dessas lutas é também, assim o espero, uma progressão contínua na sua autoconsciência. Até que luta, consciência e libertação se tornem, por fim, um único gesto contemporâneo a si próprio.

 

‘Constância, transformação e ruptura’ foi a comunicação que dirigi ao II Congresso Marx e Engels organizado pelo Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) da Universidade de Campinas. As amizades de grande proveito que fiz nesta viagem de dez dias ao Brasil, com passagens por São Paulo e pelo Rio Grande do Norte, são demasiado numerosas para nomear aqui. Foi, verdadeiramente, “em cada esquina um amigo”. Não pode, porém, ficar sem referência Ivonaldo Leite, cuja amizade já vinha muito de trás. Foi em conversas com ele, durante a sua longa estadia na cidade do Porto, que muitas ideias expressas neste livro germinaram espontaneamente, se desenvolveram ou se clarificaram.

 

‘Novos rumos do comunismo’ teve uma primeira publicação em Crítica Marxista, n.º 22 (1º semestre de 2006). A presente versão é mais extensa e desenvolvida do que permitiam as normas editoriais daquela excelente revista brasileira, de que sou colaborador internacional e em cuja direção participa o meu excelente amigo e irregular correspondente Armando Boito Jr..

 

‘Os segredos da «sociedade da informação»’ surgiu em letra impressa na revista Política Operária, n.º 95, maio-junho de 2004. Fui colaborador permanente durante mais de quinze anos desta revista bimestral da esquerda revolucionária, editada em Lisboa por Francisco Martins Rodrigues (1927-2008). O que aí publiquei, pela sua maior parte, pode ser definido como jornalismo contra-a-corrente ou desmontagem do noticiário hegemónico. Mas tive sempre grande abertura para propor também reflexões teóricas inovadoras e pesquisas originais. ‘Notas sobre o estado actual da questão imperialista’ foi igualmente publicado, numa primeira versão, na revista Política Operária, n.º 90, maio-junho de 2003.

 

‘Que outro mundo é possível?’ teve a sua versão final publicada na revista Vértice (II Série), nº 117, maio-junho de 2004. Nesse tempo eu ainda estava esperançado na emergência de uma “Esquerda de Porto Alegre” a partir do processo do Forum Social Mundial. De todo o modo, a alter-globalização, a nova Internacional, continuará a ser uma dimensão fulcral da luta em curso, a exigir uma reflexão aprofundada.

 

‘O caso Snowden’ e ‘Democracia, capitalismo e revolução’ foram publicados unicamente na revista eletrónica O Comuneiro (www.ocomuneiro.com), que se coloca em linha semestralmente, desde setembro de 2005, com edição minha e de Ronaldo Fonseca. Aí temos procurado manter, para todo o espaço da língua portuguesa, um laboratório estratégico e uma trincheira de ideias ao serviço do ascendente movimento anticapitalista. Todos os demais ensaios publicados neste volume, acima referidos, foram também republicados em O Comuneiro. O Ronaldo é um grande companheiro, com quem mantenho exaustivos diálogos sobre tudo o que importa, normalmente caminhando pelas ruas de Braga.

 

Este autor adere à reforma ortográfica em curso, mas entendeu não retocar a grafia de textos anteriores à sua entrada em vigor, agora tão contestada pelos indefetíveis das consoantes mudas.

 

O título que achei para esta breve exposição introdutória faz alusão a dois textos de Bento Gonçalves, ambos escritos no campo de extermínio do Tarrafal, um deles em papel de sacos de cimento. Pioneiro e mártir do marxismo português, este primeiro Bento (o segundo foi Caraça) era um homem que verdadeiramente pensava o mundo a partir do gesto e imaginação laborais. A reaproprição do fazer numa ontologia da liberdade criativa humana finalmente reconciliada com o seu ambiente natural continua a ser o grande desafio do nosso tempo. Enquanto há tempo que possamos ainda vir no futuro a resgatar como nosso.

 

 

maio de 2018

 

 

 

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