A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
 Para onde vai a CGTP-IN?
 
 
É de tal amplitude e insistência o rumor de esperança nas capacidades de Manuel Carvalho da Silva (CS) para dirigir a renovação - ou refundação, à maneira bertinottiana - do comunismo português que se justificaria, só por isso, uma atenção redobrada ás suas últimas intervenções em forma de livro. A avaliar por este volume (1), porém, tudo indica que as atenções, cuidados e a reflexão de CS vão permanecer firmemente ancorados no sindicalismo, entendido este embora (e correctamente) em sentido amplo, como sindicalismo de “movimento social”, ou seja, um sindicalismo que não se limita à gestão de interesses imediatamente emergentes da contratação laboral mas que assume um papel na própria formação (recomposição) da identidade dos trabalhadores, no acompanhamento das suas condições de vida, na estruturação da sua visão do mundo, incluindo o enquadramento da sua inevitável luta por uma transformação societal. Neste campo, a CGTP-IN já há muito deu amplas provas de não ser mais um instrumento dócil de estratégias exógenas. A questão agora é mesmo se, face ao definhamento esclerórito do PCP, não estaremos a assistir a uma espectacular inversão de sentido na famosa teoria estalinista da “correia de transmissão”. O facto é que CS não precisa de trocar de cavalo (correndo o risco de lhe sair um burro) para fazer mais e melhor “política” que aquela que pode neste momento ser oferecida pelo partido de Cunhal.

CS é sem dúvida um pensador interessante, embora a sua escrita seja, por vezes, um tanto confusa, sintáctica e conceptualmente. O seu discurso oral é mais convincente e melhor estruturado. Este doutorando em Sociologia não será provavelmente alguma vez um ensaísta ou académico de nomeada, mas o que não há dúvida é que tem uma visão estratégica clara e articulada, solidamente ancorada e alimentada na prática. Uma prática, sem dúvida, de uma riqueza sem paralelo, porque passa por um percurso quotidiano, ao longo de décadas, pelas arestas mais vivas na frente da luta de classes em Portugal, as quais CS conhece com um detalhe e minúcia que provavelmente não estão ao alcance de mais ninguém. Mas nem toda a prática exaustiva dá lugar a uma reflexão profícua. É aqui que entra toda a argúcia e capacidade analítica de CS, que é toda ela prática e operativa. É um saber que é já um fazer. Ora, é também este sentido agudo do concreto e a imaginação prática e organizativa de CS – firmemente ancoradas numa perspectiva de classe - que lhe permitem as passagens de maior brilhantismo neste volume na denúncia das falácias do pensamento neo-liberal, sobretudo no campo do apregoado novo paradigma de organização produtiva, suas realidades e mitos.

Tomando como esteio o melhor, senão único, pensador marxista português – Caraça -, CS traça toda uma linha estratégica para o movimento sindical português que, se é certo que solidamente apegada à via institucional (nacional e internacional), não deixa de manter duas características positivas que merecem destaque, por serem provavelmente exemplo único numa organização sindical hegemónica num país do “Ocidente”: um discurso emancipatório de classe que recusa o colaboracionismo (submissão) e um horizonte de luta que se mantém historicamente aberto a uma via (a reinventar) de superação das relações de produção capitalistas e da exploração do homem pelo homem. Nestes pontos, CS mantém-se dinossáurico e isso só lhe fica bem.

Dito isto, há que dizer também que CS é um reformista e a CGTP-IN parece fixar-se numa perspectiva social-democrata clássica, de matiz evolucionista e bernsteiniana, para a qual “o movimento é tudo, o resultado final, nada”. Dir-se-á que isso é inevitável numa época histórica como a nossa e numa organização com a sua dimensão e responsabilidades. Não me parece que seja assim. A luta concreta por reformas e a ocupação de todos os espaços e vias abertas de diálogo institucionalizado são correctas, sem qualquer dúvida. Mas até na luta pelas mesmas reformas e nos mesmos espaços de “concertação”, a atitude de uma organização reformista é muito diversa da que seria a de uma organização revolucionária. E o pior ainda é que o próprio rebaixamento do nível de visão estratégica que acarreta este empenhamento total na via reformista leva a cometer erros políticos indiscutíveis, mesmo de um ponto de vista de mero progressivismo social.

Por exemplo, é preocupante ver CS clamar por “mais Estado”, na economia e na vida social, sem cuidar de saber que Estado é esse e ao serviço de quem está (questão do poder). Mesmo que nunca tivesse lido uma página de literatura marxista, CS já anda aqui – isto é, no grande teatro da luta da classes - há muitos anos. Não vai conseguir convencer-nos de que nunca se apercebeu de que lado está o Estado. Todavia, o facto é que quando se não tem já a perspectiva da tomada do poder (ou esta perspectiva se perde num horizonte tão longínquo que se torna abstracta, quando não meramente retórica), o Estado começa a aparecer-nos como uma coisa natural, um instrumento neutro e imparcial ao serviço do “organismo” social. Ideal mesmo, para nos proteger dos “excessos” predadores da finança apátrida. Como certos prisioneiros que cumprem penas longas, optamos por esquecer o que é a liberdade, uma vez que esse pensamento nos é demasiado doloroso. Apelamos para o director contra as sevícias do carcereiro, fazendo por obliterar da memória aquilo que, no entanto, há muito já aprendemos: que os dois são unha com carne e, em última instância, o último é que tem afinal ascendente sobre o primeiro. O clamor por “mais Estado”, totalmente desligado da questão do poder, pode com toda a naturalidade conduzir-nos directamente ao fascismo. Como diz a Bíblia, mais lágrimas foram derramadas sobre as preces atendidas do que pelas não atendidas.

Outra questão: é nada menos que arrepiante ver CS apelar para a Organização Mundial do Comércio (OMC) no sentido de esta adoptar a famosa panaceia das “cláusulas sociais”. Em primeiro lugar porque essas cláusulas são, na circunstância histórica actual, medidas pura e simplesmente proteccionistas (de protecção comercial dos mais fortes, entenda-se, não de protecção aos mais fracos), ou seja, instrumentos defensivos do poder imperialista. Depois não se percebe como é que CS não vê que a OMC é uma instituição completamente opaca, directório e tribunal supremo da oligarquia financeira e dos grandes monopólios/oligopólios multinacionais. Não se trata de nenhum fórum internacional “democrático”. Perante OMC’s, FMI’s, Bancos Mundiais, OCDE’s, G7(8)’s, Foruns Económicos de Davos e quejandos, o que há a fazer é exigir a sua abolição e dispersão pura e simples, sem mais conversas.

CS não vê isto e o que dá a impressão é que, na prossecução da sua visão institucionalista (que já passou, sem problemas de maior, do plano nacional para o europeu), não tem objecções de fundo a que se vá consolidando a arquitectura institucional com que o imperialismo globalizante entende ir avançando, à sua medida, para a construção de um aparato para-estatal mundial, na esperança de que, numa segunda fase, também a voz dos trabalhadores (devidamente filtrada pelas suas organizações mais representativas, dos países mais desenvolvidos, naturalmente) aí acabe por se fazer ouvir também, dando-lhe uma ligeira pincelada “social” para remate final. Mas se isso é assim (e espero bem que não seja), então não se percebe que “ruptura” é essa que ele espera da parte do Fórum Social e do movimento dito anti-globalização. Se isso é assim, longe de agir contra a corrente, CS estará inteiramente submerso nela sem sequer se aperceber disso.

CS acha que esta atitude tacteante é inevitável no movimento operário, desde que, com a famigerada “queda do muro de Berlim”, deixou de haver uma alternativa societal visível e exemplar que permitisse levar a luta até ao fim (ou até, tão só, chantagear os patrões com essa perspectiva). É muito curiosa esta confissão de impotência. A questão aqui é se se acredita, ou não, que os trabalhadores podem tomar o poder e dirigir colectiva e democraticamente a produção, em transição para uma sociedade sem classes. E isso não é nenhum aparatchik moscovita que nos pode meter na cabeça. CS, que nunca foi “ortodoxo”, pelos vistos dependia, também ele, nos anos 70-80, do alento trazido pela irradiação solar kremliniana – quando a única atitude correcta era, então, buscar em Moscovo o máximo de apoio e o mínimo de “exemplo” possíveis. Mesmo hoje ainda olha para trás com nostalgia…

Marx e Engels não precisaram do radioso exemplo da pátria socialista para escrever o Manifesto Comunista e animar a Associação Internacional dos Trabalhadores. E também não é preciso ser um génio universal para acreditar no poder dos trabalhadores. Este poder é uma lava que brota espontaneamente, à medida que se agudizam e vão sendo expostas a céu aberto as contradições insanáveis do modo de produção capitalista. Embora sem linearidade e sem determinismo, esta lava tende a criar o seus próprios trilhos, na forma de instrumentos de análise e formas de organização que lhe são próprias.

Como CS observa muito bem, é árduo e escarposo o caminho da solidariedade entre todos os trabalhadores, em todo o mundo. Mas para nós, comunistas, não há outro. Esta é a nossa própria e irrecusável globalização. Nessa matéria, o trabalho de “génio” já está todo feito. O que é preciso é, tão só, manter os olhos abertos e não ter medo de pensar. Não é preciso pensar muito “profundamente”. Basta pensar. E fazer face às conclusões que, historicamente, se impõem e nos olham bem de face. O tal “movimento social”, no seio do tal “movimento de movimentos”, será o veículo para a frente global dos trabalhadores e deserdados da Terra face ao grande capital imperialista, ou será nada. Não há qualquer “movimento” em organizações de regateio laboral localizado que apenas, de passagem, no decurso rotineiro da concertação e diálogo sociais institucionalizados, se manifestem de princípio e piedosamente contra as “exclusões”. Onde há “movimento” é na busca activa da solidariedade internacional, a Norte e a Sul, como base essencial de mobilização para a luta. Proletários de todos os países…






Publicado na revista ‘Política Operária’ nº 89 de Março-Abril de 2003.

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NOTA:
(1) Manuel Carvalho da Silva, ‘AGIR CONTRA A CORRENTE’, Campo das Letras, Porto, 2002.

 

 

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