A PÁGINA DE ÂNGELO NOVO

 
 11.9
 
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A data de 11 de Setembro de 2001 vai certamente servir de referência aos historiadores do futuro, provavelmente (a manterem-se as convenções actuais) como marco inaugural do século XXI. Tudo isto independentemente do apuramento do grau de cumplicidade, ou até de co-autoria, que o “Estado profundo” – o complexo militar-securitário - norte-americano teve na consumação desta atrocidade. Esse apuramento pode nunca vir a ser feito com rigor, em nosso tempo. Para que se fizesse, à clara luz do dia, era necessário que, previamente, por outras razões (financeiras?), o imperialismo norte-americano sofresse uma débâcle que, ela própria, seria um sinal autónomo de mudança de era.

 

Para trás de 11.9 ficou o século dito “dos extremos” (Hobsbawn), marcado pelo ascenso dos monopólios, pelas revoluções socialistas prematuras, pelo fascismo, pelos confrontos inter-imperialistas e pela luta de libertação nacional. Para a frente temos um amontoado caótico e tremendamente disfuncional que subitamente se revela a si próprio como um mundo, irrecusável e definitivamente uno. O derrube das torres gémeas do World Trade Center em Nova Iorque é um acto terrorista de dimensões inauditas mas simultaneamente (aspecto totalmente passado em claro pelos comentadores respeitáveis, que são naturalmente e apenas os estipendiados pela plutocracia dominante) uma enorme e imprevista catástrofe civil. Em ambas estas suas dimensões, a terrível beleza do 11 de Setembro é um canto crepuscular que delimita o fim de uma era.

 

Em primeiro lugar, assinala simbolicamente a ruína completa do projecto das luzes, o racionalismo de vocação supostamente universal com que a burguesia se adornou ao tomar o poder na América do Norte e na Europa Ocidental na viragem dos século XVIII para o XIX, retomando aliás a herança do humanismo renascentista. É certo que o neo-liberalismo e a globalização armada (“guerra infinita” contra o “terrorismo”) ainda se mascaram a si próprias com um seu último avatar. É a racionalidade comunicacional habermasiana servida em mísseis de cruzeiro. Dizem-nos que, agora sim, vai finalmente espalhar-se por toda a parte a boa nova da democracia, do progresso e dos direitos humanos. Mas estes protestos envilecidos já não merecem a ninguém sequer um sorriso melancólico. Passaram-se cinco séculos de contínua agressão sem que o modelo ocidental de civilização se tivesse conseguido impor ao mundo. Agora que, a uma cadência alarmante, as tendências demográficas se lhe tornaram desfavoráveis, as suas batalhas tornaram-se essencialmente defensivas. Numa mão a pistola, na outra, seguro lá bem no alto, o saco do dinheiro (ou das stock options).

 

Os ideólogos do “nosso modo de vida” culpam o fanatismo e o ressentimento incurável dos muçulmanos. E vai de clamar por mais sangue, no inevitável “choque de civilizações”. Se ao menos eles se “abrissem”... Mas não é Maomé que tem que ir à montanha dourada prestar tributo e vassalagem eterna. O “nosso modo de vida” é que tem de provar a sua viabilidade como paradigma de socialização e convivialidade universais. O desafio multicultural do capitalismo seria provar que dos soukhs das velhas medinas há um caminho aberto a percorrer autonomamente em direcção às fusões e take-overs transnacionais. Fazer dos seguidores do profeta capitães da grande indústria cotados na Wall Street. Mas a opção tomada passa antes por pulverizá-lo nos seus ‘bunkers’ com bombas nucleares tácticas.

 

É tempo de concluir que a burguesia ocidental tentou moldar o mundo à sua imagem e fracassou rotundamente, vítima do seu próprio veneno como o escorpião da fábula. Para a história fica o facto de que a cupidez selvagem e anárquica do capitalismo foi incapaz de erguer uma civilização planetária. A “mão invisível” de Adam Smith não fez o milagre que se lhe pedia, nem revelou a sageza providencial que se lhe atribuía. Do desenvolvimento desigual passou-se à vertigem da pilhagem sem freio e de uma polarização exponencial. O bolo assapou, deixando 4/5 da humanidade na miséria e destituição absolutas. Agora os bárbaros batem à porta e a resposta do homem branco é um estrépito de pânico genocida. E ouve-se sem surpresa o sussuro do capitão Kurz: o horror, o horror.

 

Sobre as cinzas do “ground zero” tocou-se também a finados por um modelo de vida e uma concepção urbanística. É o modelo que Mike Davis denominou como “cidade de quartzo”, caracterizado pela disparidade económica, anomia social e inimizade racial. Projectado para o futuro, será o modelo distópico do filme ‘Blade Runner’ de Ridley Scott. É um mundo esquizofrénico, aqui elevado às alturas em arrojados sonhos climatizados de sílica e titânio, ali distenso pelo chão em alamedas térreas de urina seca, cartão velho e cães vadios. Um mundo em que a sabedoria da vida consiste em desviar os olhos e reprimir dúvidas inoportunas. O império da duplicidade e do medo.

 

Muitos pretenderiam que a falência do universalismo iluminista desse lugar ao caleidoscópio lúdico da pós-modernidade, que entretanto deixou cair o seu afamado sentido de ironia e se vestiu para a guerra. Mas o clamor que está nas ruas é que um outro mundo é possível. Não deveria sequer ser preciso lembrá-lo. Como dizia Gabriel Tarde, o real não é mais que um caso particular do possível. Porém, o elemento decisivo deste enunciado “forte” é mesmo o tão vilipendiado holismo. Queremos um mundo outro, livre da tirania do lucro que nos explora, avilta e exclui. Em Paris, como em Mumbai, Lagos, Melbourne ou Buenos Aires. Como previ há quatro anos no meu livro 'O estranho caso da morte de Karl Marx', a hora e o palco é novamente, mais do que nunca, para o grande narrador das barbas. Proletários de todos os países...

 

 

2004

 

 

 

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